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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 22 de Março de 2021

 
     

Amazônia à venda e outras circunstâncias de um retrocesso

  

Que o jornalismo questione os negacionistas do desmatamento ilegal, escute as vozes sob ameaça e mobilize leituras críticas do mundo

  

BBC Brasil    
Desmate em área protegida nos arredores de Porto Velho


Por Mathias Lengert*

O Brasil, um país com meio milênio de apropriação de terras, vê seu legado obscuro avançar com a grilagem na Amazônia. Tal como nos tempos ditatoriais, a floresta – cuja destruição conta com a simpatia do sistema político – é considerada um obstáculo para o desenvolvimento. A eleição de Carla Zambelli (PSL-SP) para a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados testemunha esse desinteresse com uma ferida aberta que tarda a ser tratada. “Foi uma circunstância”, afirmou a deputada ao minimizar a responsabilidade do Governo no aumento de focos de incêndio na Amazônia nos últimos dois anos. Em entrevista, concedida ao Estadão após a sua nomeação, Zambelli culpou as narrativas da oposição pela imagem negativa que o país possui na gestão ambiental.

Entre disputas políticas que lançam o debate público a uma espiral de desinformação e retrocesso, esperamos do jornalismo um alento. Que ele seja capaz de questionar deputados negacionistas sobre o desmatamento ilegal que insiste em ser escondido, com uma posição de escuta às vozes que a grilagem e o garimpo ameaçam calar, mobilizando, assim, leituras críticas do mundo. Observa-se, no entanto, que o Estadão assumiu uma postura de frágil contestação na entrevista, sem questionar o alinhamento dos membros da Comissão de Meio Ambiente com as agendas de Ricardo Salles e da bancada ruralista.

Em contrapartida, o fôlego da investigação jornalística do documentário da BBC Brasil sobre a negociação de pedaços da floresta amazônica no Facebook consolidou em si um espaço de denúncia. Muitas das áreas à venda pertenciam a unidades de conservação ou terras indígenas – especialmente da tribo Uru Eu Wau Wau. Os lotes oferecidos não possuíam títulos públicos. Três dias depois da publicação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou a investigação deste mercado ilegal.

A produção revela ainda que o esquema de grilagem de terras tem a anuência de políticos. Entre os citados, a investigação evidencia um nome que ressoa entre os recentes acontecimentos da Câmara. Trata-se do Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), apontado por grileiros como um aliado em Brasília. No dia 12 de março, duas semanas após a publicação do documentário, o deputado federal foi eleito vice de Zambelli na Comissão de Meio Ambiente. Alguns dos parlamentares não parecem se constranger em nomear políticos que são a antítese dos cargos que irão ocupar.

O exercício investigativo da BBC, por sua vez, é um reduto de resistência às narrativas daqueles que compartilham das posições de Zambelli e Chrisóstomo, sinalizando não apenas a ocorrência dos crimes, como também promovendo as reivindicações de povos indígenas. O jornalismo ambiental é constituído desse ato da escuta do outro, assumindo um posicionamento sensível e crítico. E, para tanto, é necessário indicar as interconexões de questões socioambientais complexas, sem se abster de referenciar projetos políticos ecocidas.

 

* Este texto foi produzido por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental". A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS).

 

OJA - EcoAgência

  
  
  Comentários
  
Enos Gileade Barreto Costa - 23/03/21 - 12:56
Amigos, parabéns pelas colocações precisas, os senhores apontam fatos e que esses fatos sejam investigados e aplicada a lei de acordo sua importância. Mas... os senhores sabem também, que a questão ambiental no Brasil, é negativa a DECADAS, e não se pode em hipótese alguma tentar administrativamente falando, organizar 50 anos de desmando, desvio de verbas, desmatamentos dentre outras situações terríveis em que SAQUEARAM nosso meio ambiente VEDE, em dois anos de administração. Sou plenamente a favor que todos que estão na pasta sejam punidos a rigor da lei...Mas temos que ponderar também a situação HOJE.
  
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