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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

 
     

Porto Alegre: O futuro do Arroio Dilúvio

  

Entrevista com o diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Luiz Lopes da Silveira.

  

Arroio Dilúvio, em Porto Alegre


Por Vicente Andrade de Carvalho, especial para a EcoAgência de Notícias

Os altos níveis de poluição dos rios e arroios constituem uma realidade bastante presente nas grandes cidades e um problema que se antes era encarado com certa naturalidade – sendo justificado pelos impactos inerentes à evolução da vida urbana – hoje é visto como um desafio para a sociedade e seus governantes no sentido de devolver a esses cursos d’água a vida que possuíam antes de serem violados pelo homem. Em Porto Alegre, vive-se a expectativa de que isso seja possível com a recuperação do Arroio Dilúvio, que durante anos ficou conhecido pelas suas cheias em períodos de grandes precipitações e também pela grande concentração de poluição. No ano passado, a intenção de levar esse projeto adiante foi trazida pelo pró-reitor de Pesquisa da UFRGS, João Edgar Schmidt, e pelo gestor de Relacionamentos do TecnoPUC, Luis Humberto Villmock, que, após viagem à Coreia do Sul, propuseram às prefeituras de Porto Alegre e Viamão ações conjuntas para revitalizar o Dilúvio.

Em meio às desconfianças e à euforia que envolve o plano, surgem alguns questionamentos. Um deles é se o modelo de revitalização que inspira esse projeto – o executado em Seul no Rio Cheonggyecheon – pode ser aplicado na capital gaúcha, e se existem ressalvas quanto a isso. O diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, o professor André Luiz Lopes da Silveira, atual responsável pela coordenação do grupo gestor do projeto na Universidade junto à Faculdade de Arquitetura, responde a algumas dessas questões na entrevista logo abaixo, concedida à EcoAgência.

Vicente Carvalho – Qual é o foco do projeto, que problemas ele envolve?

André Luiz Lopes da Silveira – O foco é toda a bacia e isso envolve o saneamento ambiental, que é um dos grandes problemas da bacia, mas envolve a questão fundamental, a questão urbana da ocupação do solo que também tem muitos impactos na geração de escoamento, na geração de esgotos, na geração de sedimentos, na questão do lixo e na questão do impacto ambiental. Então nós estamos numa fase de definir o plano de ação. O Dilúvio está sofrendo com a poluição há mais de 50 anos então nós temos que tomar uma atitude, tem que começar um dia a ter essa visão integrada, sistêmica do arroio porque tudo está realmente interligado. Quando as coisas não funcionam bem, os impactos aparecem, talvez de maneira mais visível nos seus recursos hídricos.

Atualmente, o IPH já conduz algum tipo de estudo a respeito do Arroio Dilúvio que seja aplicável ao projeto de recuperação?

Eu mesmo coordeno um projeto pequeno numa rede nacional de manejo de águas pluviais onde o foco é uma pequena parcela da bacia, mas é justamente uma bacia de muito interesse de revitalização, de recuperação, que é a bacia que nasce, que é de Viamão e que desemboca no lago do Campus do Vale. Então nós temos ali um projeto acadêmico de diagnóstico de poluição, de hidrologia. Nós estamos investigando a poluição dentro do lago, no leito, no lodo do lago e tem uma parte de gestão que nós estamos a nível de pesquisa introduzindo, testando metodologias de abordagem social lá dentro da bacia com o intuito da revigoração, despoluição da bacia. Mas isso é um projeto acadêmico que vai se integrar a esse projeto Dilúvio de maneira natural, digamos assim, mas a rigor eles não têm muito a ver. Agora, historicamente, o IPH tem tido uma atuação desde os anos 70 de apoio ao Departamento de Esgotos Pluviais em estudar o Dilúvio como um todo. De (19)77 a (19)82, o Arroio Dilúvio foi a bacia urbana, talvez do mundo, mais instrumentada em termos de aparelhos de medida de chuva e vazão.

Esses dados até hoje são importantes, esse estudo já foi concluído nos anos 80, depois ele foi retomado em outros projetos acadêmicos parcialmente em sub- bacias do Dilúvio: na bacia do Moinho, na bacia do Mãe d’Água, que desemboca na barragem do lago, uma bacia na Agronomia. Então nós estudamos ao nível do Pronex na época, fim dos anos 90 e início dos 2000. Temos também outro estudo bastante importante mas em outra bacia cujos dados podem servir de apoio ao que nós pretendemos fazer no Dilúvio que é um projeto lá na bacia do Arroio Capivara, no sul da cidade e é um estudo bastante interessante que realmente nós conseguimos avançar no conhecimento dos processos que levam à poluição dos arroios e vincular isso com a questão da ocupação urbana.

Qual é o papel do Instituto de Pesquisas Hidráulicas nesse processo?

O IPH tem uma ligação histórica com a questão da hidrologia com a questão da hidrologia urbana e isso não é suficiente para tocar um projeto de renaturalização ou de restauração porque tem que integrar a questão urbana - por isso que a Faculdade de Arquitetura (da UFRGS) tem papel importantíssimo nesse projeto – porque a ocupação do solo é um elemento-chave para o dimensionamento dos impactos então é conveniente uma adequada ocupação do solo, além de tornar a bacia do Dilúvio mais aprazível para o convívio da sociedade, seja na bacia, seja em relação aos próprios córregos, então a questão urbana é fundamental. Os processos urbanos têm que ser melhor integrados aos processos que nós já conhecemos de hidrologia e saneamento e buscar aí uma sinergia, soluções ambientalmente sustentáveis e obviamente aí temos os outros ramos científicos que vão dar contribuição, que é a questão ambiental propriamente dita, então temos questões ecológicas, questões de manejo de áreas de preservação que precisam se incorporar nesse plano de ação, de restauração, de recuperação do Dilúvio. As soluções que nós vamos propor têm que ser soluções viáveis, têm que propor a captação de recursos porque a gente sabe que um projeto dessa natureza - a execução dele propriamente dita - não vai ter, as prefeituras (de Porto Alegre e Viamão) que não têm uma capacidade financeira própria suficiente pra colocar isso, então nós vamos buscar financiamento para os estudos com a ajuda desses quatro partícipes, com o peso desses quatro partícipes nos órgãos de financiamento possíveis e vamos atrair recursos pra isso.

Já foi definido como vai ser executada a despoluição do arroio, se ela ocorrerá através da limpeza dele ou será por meio de um outro tipo de intervenção?

Primeiro, que a preocupação não é só com o Arroio Dilúvio. O Arroio Dilúvio e os seus afluentes é que é a preocupação. A rigor, nossa preocupação é com todos córregos que existem ainda a céu aberto na bacia do Arroio Dilúvio e uma preocupação desse projeto é não atrapalhar nem interferir naquilo que já está em andamento. A gente pode perceber que já existem muitas medidas em andamento. Existe esse projeto, o PISA, Programa Integrado Sócio-Ambiental, que tem por objetivo o tratamento de esgoto da maior parte de Porto Alegre e a maior parte do esgoto é gerada na bacia do Arroio Dilúvio. Aqui nós temos cerca de talvez 450 mil pessoas morando na bacia do Arroio Dilúvio.

Se o esgoto realmente for conduzido separadamente por redes separadas e grande parte dessa rede já está disponível na bacia, falta com que haja uma maior conexão dos domicílios a essa rede de esgotos e depois estando pronto esse projeto, o esgoto não mais vai ser bombeado para dentro do Guaíba mas ele vai ser bombeado para uma canalização, um sistema altamente complexo com bombeamentos e canalizações inclusive enterradas no próprio leito do Guaíba até o sul da cidade onde vai ser tratado em uma estação de tratamento de esgotos.

Então a curto e médio prazo, já há ações que vão em tese melhorar a qualidade da água da bacia do Dilúvio. É claro que existem muitas áreas da bacia do Dilúvio que têm uma ocupação urbana ainda inadequada - por isso a questão da urbanização é importante - por que há locais com invasões obviamente, há pessoas morando em áreas de risco, então essa questão urbana tem que ser estudada porque no limite, uma parte da população até pode ser necessária a sua remoção mas outra parte pode ser uma questão somente de adequação fundiária e fazer com que a infraestrutura de saneamento e outras infraestruturas cheguem e se conectem com esse grande sistema de coleta de esgotos da bacia e essa água, o esgoto não chegaria mais. Aumentando o índice de conexões de esgoto à rede de esgoto já existente em projeto, as melhorias já estão em andamento. O que o nosso projeto vai encaminhar é como ajudar na aceleração desse processo e como nós podemos completar os projetos e isso incluindo não só a questão setorial do saneamento mas a questão do saneamento mais urbanização. Um tem a ver com o outro. E obviamente o meio ambiente também nesse sistema todo.

Nossa proposição é realmente mapear os estudos ainda a serem feitos pra que esse “círculo virtuoso” de ocupação adequada do solo, respeito às áreas de preservação e a melhor técnica para afastamento e tratamento de esgotos se espalhe por toda a bacia. Também na questão de enchentes, de águas pluviais, existem projetos em andamento. O plano diretor de drenagem do Arroio Dilúvio está em plena execução então essas informações também vão ser incorporadas nesse projeto e esse projeto vai na verdade complementar talvez essas informações e integrar isso num plano global. Voltando a dizer, questão de água, urbanização, meio ambiente e outros enfoques também que não podemos desconsiderar, todo o controle de resíduos sólidos, sedimentos, erosões que são livres na bacia e acontecem em terraplanagens e solos expostos, tudo isso teria que ter um manejo e controle melhor.

A inspiração para a revitalização do Dilúvio vem da Coréia do Sul. Quais são os detalhes que o senhor tem a respeito do projeto sul-coreano, e quais são as ressalvas quanto à sua aplicação aqui em Porto Alegre?

O projeto é muito bonito, lá em Seul, só que realmente, ele é muito diferente do nosso. Têm aspectos que são até piores que os nossos porque lá eles tinham um arroio totalmente poluído décadas atrás então eles resolveram canalizar esse arroio ou seja tapar ele. Isso nunca é solução, cobrir um arroio porque aí mesmo é que nunca vai se tratar o que está lá por baixo. E ainda por cima lá na Coreia (do Sul) depois eles colocaram um “minhocão”, uma elevada por cima do arroio, então tinha sistema viário em baixo e sistema viário em cima, algo esteticamente horrível. A um custo de 300 a 400 milhões de dólares, conseguiram revitalizar essa área mas houve um gasto bastante grande de demolição. Eles demoliram esses minhocões em cima, demoliram a questão da via que tinha sido construída numa galeria imensa e colocaram a céu aberto de novo o leito do Arroio Cheong Gye Cheon.

Lá eles demoliram todas essas coisas, fizeram um projeto totalmente novo, só que são seis quilômetros. O Dilúvio tem dependendo dos cálculos, 15, 16, 17 quilômetros a revitalizar, só o eixo do Dilúvio propriamente dito. Mas tem todos os córregos laterais, o que não foi objeto de estudo lá na Coreia. A Coreia se preocupou apenas com o leito central e também tiveram que reconstruir toda a rede de esgotos e drenagem pluvial, então custos a mais, eles saíram do zero de novo lá em Seul. E porque a quantidade de água era muito pequena, eles resolveram aportar água artificialmente para o arroio.

Essa é uma diferença básica em relação a nós, que aqui seria impraticável economicamente então eles desviaram o fluxo de um outro rio e com tratamento ainda em cima disso se joga uma água praticamente tratada dentro de um trecho de seis quilômetros. É uma água praticamente - não diria potável - sanitariamente acima da média do que seria necessário para as pessoas se aproximarem. Não seria preciso tudo isso pra que haja um convívio no arroio. Na questão da enchente, lá eles também fizeram um projeto pra um período de retorno de 200 anos ou seja o risco de uma ocorrência em média a cada 200 anos. Claro que quando há enchente, se interrompe o fluxo de pedestres porque ele tem áreas pra percorrer ao lado do arroio quando ele está com o nível baixo. 

Em meio às discussões que vem sendo realizadas, o que se projeta fazer com o esgoto que deságua atualmente no Arroio Dilúvio?

Existem coletores de esgoto ao longo da avenida Ipiranga, não estão totalmente construídos mas grande parte deles já está operacional a nível de se todas as ligações domiciliares forem feitas corretamente pra esse grande coletor, tubulação de maior diâmetro que conduz realmente a contribuição do esgoto de toda a bacia para o exutório então tem ramos secundários, coletores ao longo das ruas e têm as ligações pras casas.

Muitas vezes o ponto crítico é a ligação da casa pra esse coletor seja por ignorância, muitas vezes, que tem a rede de esgoto muitas vezes passando na frente e seria conveniente ligar à sua casa, isso obviamente tem um custo de obra e um custo que depois vai ser cobrado na conta de água mas o benefício ambiental é realmente grande, então cada morador deve pensar bem de que ele também tem seu papel, ou seja, ele tem que verificar se a sua casa está convenientemente ligada e se não tiver, tem que ligar, tem que investir na rede de esgoto que passa na frente da sua casa. Se não tiver rede de esgoto, pode ser que haja um sistema ainda misto, ou seja, através de fossa e filtro, e isso dá um tratamento primário e depois disso é jogado na rede de drenagem mas como ele já está tratado, a qualidade dele vai ser superior.

Agora, o plano - e isso talvez seja uma meta de médio a longo prazo - é separar totalmente as redes porque o ideal realmente é ter a rede de esgoto conduzindo apenas esgoto e a rede de águas de chuva conduzindo apenas águas de chuva. Não que a água de chuva que vai direto pro arroio seja limpa porque ela vai acabar lavando as ruas durante os períodos de chuva mas é aí que entra o outro aspecto da questão de controle de sedimentos, de controle de animais pra não gerar tantos coliformes fecais, tantas matérias orgânicas, questão de lixo jogado na rua porque mesmo tendo tudo bonitinho, redes separadas, se a gente jogar lixo na rua ou deixar lixo inadequadamente disposto para coleta pelo DMLU isso vai acabar chegando no arroio.


Matéria elaborada para a disciplina Jornalismo Ambiental, FABICO/UFRGS, sob a orientação da Profa. Ilza Girardi.

 

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