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Políticas Públicas

Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

 
     

O modelo econômico do RS está em questão em Porto Alegre (RS)

  

A chamada "reconversão produtiva" no meio rural, expressão técnica que oculta o fato de que se trata de uma substituição da produção de alimentos por commodities agrícolas, levou os preços da erva-mate (10 reais/kg), do pinhão da araucária (15 reais/kg) e da farinha de mandioca (6 reais/kg) a padrões exorbitantes e nunca antes vistos no Rio Grande do Sul

  


Por Redação da EcoAgência

Acontece nesta quinta-feira, dia 29, o painel "O Modelo Econômico em expansão no RS: conflitos e impactos socioambientais", no Auditório da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, às 18h45min, com o Msc. Eduardo Ruppenthal (Mogdema e Ingá), o Prof. Paulo Brack (UFRGS e Ingá); a Dra. Clitia H. B. Martins (FEE) e o Prof. Dr Cleyton Gerhardt (PGDR/UFRGS).

De acordo com o divulgado, a proposta do painel faz parte de um ciclo de debates que se inicia e responde a uma demanda para o aprofundamento da discussão na sociedade gaúcha sobre indicadores econômicos, impactos ecológicos e conflitos ambientais do chamado modelo de desenvolvimento que tem sua base alicerçada apenas na busca por crescimento econômico.

A promoção do evento é do Mogdema e conta com o apoio da: Agapan; APG-UFRGS; Faculdade de Economia – UFRGS; InGá; Movimento Rio Uruguai Vivo; Projeto de Extensão – Bio – UFRGS: Construindo consciência Crítica; Seção Sindical do Andes – UFRGS.

Confira a seguir o documento que fundamenta o painel e foi divulgado pelo Mogdema:
 

Recentemente, o governo do RS anunciou entusiasticamente um gigantesco investimento em celulose liderado pelo grupo chileno Eliodoro Matte e família, representantes de um império da celulose no Cone Sul. Com o projeto se aprofundam as perdas em biodiversidade no Pampa, na agricultura e na pecuária familiar. Estreita-se com isto a diversificação da economia gaúcha tornando-a ainda mais dependente da exportação de celulose para a Ásia. Ampliam-se as monoculturas de eucalipto e outros monocultivos arbóreos, aliados a uma planta industrial gigantesca, altamente poluidora e consumidora de energia.

Em sintonia com estas iniciativas, outros grandes empreendimentos, em especial megahidrelétricas de altíssimo impacto socioambiental e indústrias eletrointensivas nacionais (Eletrobrás, Votorantim, Engevix, etc.) e transnacionais (Alcoa, Tractebel e Suez) de exportação de matérias primas, não ficam atrás no que toca às transgressões a direitos socioambientais.

Paralelamente, investimentos de bilhões de reais são previstos, com recursos do BNDES, para o uso energético do múltiplo-poluente carvão mineral em outros mega-empreendimentos no Estado. Ironicamente, a  fonte energética do carvão mineral entra no leilão de energia este dia 29 de agosto, logo pouco mais de um ano após a Rio + 20, momento aquele em que o governo federal admitia descartar esta fonte conhecidamente suja. Neste caso, os principais Projetos de
termoelétricas a carvão pertencem ao grupo de empresas do decadente (mas ainda bilionário) Eike Batista cujas empresas, ainda que atualmente em franca perda de ativos, continuam recebendo fartos aportes de recursos e apoios financeiros governamentais.

Por outro lado, anunciam-se efêmeras supersafras de milhões de toneladas de grãos para exportação sem levar em conta que estas ocorrem depois de um ano de grandes perdas (em 2012 a diminuição nas safras de milho e soja foi de 30% a 40%). Além disso, esquece-se que a tal "supersafra", alardeada com orgulho por ruralistas e representantes do governo do estado, está ancorada num modelo produtivo altamente poluente e insustentável do ponto de vista ambiental e da saúde da população. Em 2009, o Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos (5 litros por habitante), consolidando um modelo de agronegócio exportador e quimicodependente.

A chamada "reconversão produtiva" no meio rural, expressão técnica que oculta o fato de que se trata de uma substituição da produção de alimentos por commodities agrícolas, levou os preços da erva-mate (10 reais/kg), do pinhão da araucária (15 reais/kg) e da farinha de mandioca (6 reais/kg) a padrões exorbitantes e nunca antes vistos no Rio Grande do Sul. Aliado ao feijão importado da China, são reflexos da falta de um programa (e de uma vontade política) de garantia de segurança e soberania alimentares, reforçando com isso uma agricultura que serve a oligopólios de sementes (agora em sua maioria transgênicas).

Soma-se a isso o fato de que iniciativas de reforma agrária foram praticamente congeladas, drenado-se ao mesmo tempo imensos recursos para a agricultura empresarial exportadora (135 bilhões de reais em comparação a pouco mais de 20 bilhões par a agricultura familiar).

No país que é (ou era?) o "campeão da biodiversidade" (orgulho nacional até mesmo lembrado por personagens como Katia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura e principal liderança ruralista no Congresso ), abandona-se a diversificação do cultivo de plantas nativas do sul do Brasil, provocando mais êxodo rural e colocando em risco a agricultura familiar (de longe, segundo dados do IBGE, quem mais produz alimentos para o país).

Na indústria, a situação não é tão diferente. Despontam, entre outros, o parque automotivo de veículos individuais, com obsolescência absoluta, além da manutenção de gordos financiamentos às indústrias fumageiras, que levam milhares de pessoas à morte por câncer e trabalho de quase escravidão financeira e comprometimento da saúde do agricultor no campo. E as indústrias têxteis gaúchas de calçados se mudaram para outras paragens, e ao mesmo tempo nossos vestuários são agora quase totalmente chineses ou indianos, sob os ventos da precarização do trabalho e da mão de obra mundial.

Na esfera ambiental, por outro lado, contrastando com os índices obsessivos de crescimento econômico, o Rio Grande do Sul vê emergirem indicadores ambientais vergonhosos, como, por exemplo: mudança anual de secretários de meio ambiente, com mais de 13 chefes da pasta, desde 2002; graves irregularidades no licenciamento ambiental que levaram secretários e ex-secretários à prisão pela Polícia Federal; sucateamento de sua rede de monitoramento da qualidade do ar, há pelo menos três governos; ínfimos 0,6% do território do Estado protegidos por unidades de conservação integral; ausência de programas de recuperação ou proteção de matas ciliares; perda de recursos públicos em mais de 30 milhões de reais em multas ambientais não executadas e outras dezenas de milhões de reais em medidas compensatórias não implementadas; rios da região metropolitana (Sinos e Gravataí), entre os mais poluídos do Brasil; domínio hegemônico de monoculturas transgênicas (99% da soja e 70% de milho); ataque às terras indígenas e quilombolas por parte do agronegócio, com apoio governamental; entre outros tantas demandas que deveriam implicar em forças-tarefas para superar o quadro ambiental desastroso estadual, e que também é quase regra no Brasil.

Vamos passar a limpo tudo isso? Por que não colocar no patamar devido a urgência na proteção dos territórios daqueles que mais são os aliados da natureza, como os povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e campesinos, e na agrobiodiversidade gaúcha e brasileira? Por que não se investir em descentralização econômica, energética, na recuperação da diversificação da agricultura e sua "desvenenização"? Por que não se optar por energias mais sustentáveis e menos poluentes como energia solar, térmica e fotovoltaica? E por que não apostar na bioenergia dos resíduos orgânicos domésticos e no
seu reaproveitamento, na reciclagem de materiais não obsoletos e indiscriminadamente descartáveis?

Por que não refletir criticamente sobre aquilo que nos apresentam como nova salvação da economia e do povo gaúchos no sentido de buscar outros padrões de "sustentabilidade" que não aqueles alicerçados apenas na busca pela maximização de lucros, poder e egos, mas que, ao contrário, coloquem em primeiro lugar a vida das pessoas e a necessidade de proteção da natureza?

Serviço:

Painel: "O Modelo Econômico em expansão no RS: conflitos e impactos socioambientais"

Horário: Dia: 29/08 (quinta-feira)

Hora: 18h45min

Local: Auditório da Fac. de Ciências Econômicas da UFRGS (Avenida João
Pessoa, 52, Porto Alegre)
 

 

 

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