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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 02 de Agosto de 2021

 
     

Jornalismo de neve: o mesmo de sempre? Nem sempre

  

É fundamental aprofundar as conexões entre a neve e outros fenômenos que também são decorrentes das mudanças climáticas

  

Captura de tela da notícia do DC/NSC     


Por Míriam Santini de Abreu*

A cobertura das ocorrências de neve já virou motivo de piada no meio jornalístico de Santa Catarina. A pauta é sempre a mesma: o deslumbre dos turistas (e repórteres), a abundância de roupas para enfrentar o frio, a campanha do agasalho, a lotação esgotada de hotéis e pousadas na Serra, a tentativa de confecção de bonecos de neve enlameados. Em caminho oposto, duas matérias se destacaram na edição de 30 de julho, uma no Portal ND+ e outra no DC (Portal NSCTotal). No primeiro, as dificuldades de famílias empobrecidas diante das baixas temperaturas; no segundo, a ligação entre o frio atípico da semana que passou e a crise climática.

Assinada pela jornalista Ângela Bastos, a notícia do DC aborda o quanto o frio afeta o cotidiano de famílias que moram no Maciço do Morro da Cruz, que se estende de Norte a Sul no Centro de Florianópolis. A repórter descreve o espaço geográfico, as moradias precárias e detalha as medidas desesperadas das famílias para tentar se aquecer, como tapar frestas das casas com papelão e folhas de jornal e se esquentar com o calor do corpo de outro membro da família, com pais e filhos dormindo juntos. A notícia sai do lugar comum da cobertura jornalística local, que costuma associar a pobreza à destruição da natureza.

Intitulada “Frio atípico em SC é sinal de alerta para impactos do aquecimento global”, a notícia do ND+, assinada por Lorenzo Dornelles, traz como fontes pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Mesmo sem aprofundar a explicação, a notícia busca estabelecer a relação entre os recordes de temperaturas mínimas no âmbito regional, com 0°C em Florianópolis e -8,6°C em Bom Jardim da Serra, por exemplo, e de máximas em outros países, como o Canadá e os Estados Unidos, onde houve temperaturas acima dos 50°C nas últimas semanas. Na mesma edição, outra notícia falava sobre um migrante do Pará socorrido com início de hipotermia após pernoitar em uma área de mata em Concórdia, no Oeste do Estado, sob temperatura de 0°C.

Ainda que pouco densas, matérias como essas abrem caminhos promissores para veículos e jornalistas de Santa Catarina em busca de abordagens mais totalizantes para a pauta sazonal da chegada do frio e da neve. Para enriquecer essa cobertura, é importante apostar na pluralidade de fontes e interpretações, ouvir as pessoas afetadas pelo frio fora do circuito do turismo deslumbrado e questionar o posicionamento do poder público sobre as medidas a serem tomadas para mitigar esses impactos. Além disso, cada vez mais é fundamental aprofundar as conexões entre a neve e outros fenômenos que também são decorrentes das mudanças climáticas.

 

 

* Texto produzido no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental" por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS). Míriam Santini de Abreu é jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo.

 

 

 

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