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Transgênicos

Terça-feira, 02 de Julho de 2013

 
     

Ex-pesquisador da CTNBio critica forma de aprovação de transgênicos

  

Professor Paulo Kageyama afirma que há um domínio das empresas para a aprovação dos transgênicos, sendo que os processos não respeitam o mínimo do critério de rigor científico, estatísticas, das coisas formais de pesquisa. 

  

Divulgação    
Ex-diretor de biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Kegeyama trabalhou quatro anos na CTNBio


Por Articulação Nacional de Agroecologia

Após trabalhar quatro anos na Comissão Técnica Nacional de Biotessegurança (CTNBio), o professor Paulo Kageyama, ex- diretor de biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, afirma que a aprovação dos transgênicos no órgão é totalmente viciada em benefício das grandes empresas. Segundo ele, que é engenheiro agrônomo, doutor em agronomia (genética e melhoramento de plantas) pela USP, o sistema de maioria simples para votação dos projetos faz a biotecnologia prevalecer quase automaticamente nas avaliações.
 
 
Como é o procedimento interno da CTNBio em relação às aprovações dos transgênicos?
 
O grande problema é que há um domínio na CTNBio pelas empresas. A maioria das pessoas lá é sabidamente pró biotecnologia, os transgênicos. Eles acham que o que é feito pela biotecnologia é uma tecnologia boa, então esse é o princípio. Não se preocupam muito com o conteúdo, então os processos não respeitam o mínimo do critério de rigor científico, estatísticas, das coisas formais de pesquisa. Quem vê os processos não acredita que seja para aprovar uma coisa tão importante como um transgênico. A gente via todos os erros estatísticos, processos, tudo sem nenhum rigor. Fazíamos todo um trabalho, gastava um tempo enorme, e como éramos minoria eles esperavam a gente ler o parecer e ao término já queriam votar porque sabem que têm maioria no voto. Na verdade, eles não dão importância nenhuma ao conteúdo e consideram já de antemão que sendo uma construção biotecnológica é boa por princípio. Então nunca desaprovamos nenhum processo, mesmo apontando todos os erros. Tem um monte de processos lá que eu denunciei esses erros, que seriam suficientes para não aprovar o processo. No entanto, todos foram aprovados. Se algum dia alguém resolver de fato reavaliá-los cuidadosamente e ver todas as argumentações e refutações, certamente vai ser um grande rebu. Infelizmente a maioria é pró tecnologia, não temos condições de criticar, tornando o processo totalmente falso. Sem nenhum rigor científico.
 
De que forma se deu essa questão da maioria, e qual o papel da CTNBio?
 
É porque o Ministério da Ciência e Tecnologia tem o domínio de indicar a maioria, e ele é pró biotecnologia. Infelizmente com a decisão do Congresso de passar para maioria simples, ao invés de maioria de 2/3, fez com que não houvesse nenhuma possibilidade de haver equilíbrio na discussão. Aliás, não há discussão. Então é um processo viciado de fato, de antemão sabe-se que vai ser aprovado e a empresa nem se preocupa.
 
A atribuição da CTNBio é aprovar os processos dos transgênicos, ela é suprema nesse tema. Como eles têm maioria, se prevalecem disso e não discutem. As empresas dominam.
 
Qual é o cenário na academia? Porque esses técnicos que estão na CTNBio se formaram em algum lugar... Como é essa questão da pesquisa científica?
 
A pesquisa também é premiada. Já que a hegemonia é pró transgênico, então todas as agências financiadoras têm a hegemonia. É uma minoria que estuda, por exemplo, fluxo gênico, contaminação e transgênico, como eu. Aqueles que são pró biotecnologia são escolhidos a dedo na academia, ao invés da biossegurança. A escolha já é dirigida, é igual ao Congresso Nacional: se tem minoria está acabado, então os ruralistas dominam.
 
E a informação que vai para sociedade em relação a esse contexto?
 
Infelizmente a mídia mais imparcial e neutra é uma minoria, pois os grandes jornais e a televisão são pró hegemonia. Nunca vão colocar essa questão em debate, é uma mídia favorável à biotecnologia. A não ser que mude esse cenário com a população querendo alimento saudável, aí é a educação da sociedade. A população tem que saber o que está sendo examinado para exigir alimento saudável, assim talvez as coisas mudem. É super importante que a sociedade se interesse e se empodere dessa informação, porque tendo informação certamente eles vão exigir alimento saudável.
Articulação Nacional de Agroecologia - EcoAgência

  
  
  Comentários
  
Paulo Andrade - 03/07/13 - 11:04
Ao contrário do que diz o Dr. Kageyama, a CTNBio tem um procedimento bem estabelecido para avaliação de risco e segue o que há de melhor em ciência. Depois de seis anos na CTNBio, durante os quais auxiliei na redação de quase todas as novas resoluções normativas, avaliei centenas de pedidos de liberação planejada e mais de uma dezena de pedidos de liberação comercial, possa assegurar que a CTNBio faz uma avaliação muito séria dos riscos dos OGMs. Entretanto, porque não lhe cabe, ela não faz avaliações sócio econômicas, e isso dá a falsa impressão que os membros da CTNBio não vêm as questões sociais. Isto é um grave erro: pessoalmente, os membros estão bem cientes das questões sociais ligadas a uma nova tecnologia, mas não é sua função especular sobre isso, que cabe ao Conselho Nacional de Biossegurança.. É uma pena que a EcoAgência só dê voz a quem critica o trabalho sério da CTNBio, ao invés de dar voz também aos membros da CTNBio que, trabalhando duramente, permitiram que o Brasil adotasse a biotecnologia sem qualquer relato de impacto na saúde ou no ambiente, além da boataria da internet e de um relatório mal elaborado e cheio de erros da SEAB do Paraná. Atenciosamente Paulo Paes de Andrade Depto. Genética UFPE Andrade@ufpe.br
Eliege Maria Fante - 06/07/13 - 21:02
A CTNBio faria uma avaliação muito séria se utilizasse estudos independentes e não apenas das empresas de OGM's; se somente aprovasse comercialmente produtos das empresas de OGM's que tivessem mais de três, quatro meses de observação e resultados sobre os impactos como os estudos à longo prazo, de dois anos ao menos; se se preocupasse com o aumento do uso dos agrotóxicos no Brasil, o maior consumidor mundial de venenos; se se preocupasse verdadeiramente com a segurança e a soberania alimentar dos brasileiros que estão se alimentando com venenos com alta toxicidade; há muitos "se's" para refletirmos, mas a grande mídia é cúmplice da ganância das multinacionais e do capitalismo. Aqui não há espaço para a desinformação. Eliege Maria Fante, jornalista, mestre em Comunicação e Informação PPGCOM/UFRGS, ecologista, membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS, integrante do movimento ambientalista gaúcho, em especial cito a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
Ilza Maria Tourinho Girardi - 07/07/13 - 15:02
Parabéns à EcoAgência por publicar a entrevista do Prof. Kageyama. Não é o primeiro pesquisador sério que faz esse tipo de denúncia.A literatura científica relata os danos dos transgênicos à saúde.Caso essa literatura esteja equivocada, certamente são incontestáveis os relatos sobre os danos ambientais, sociais e econômicos. Ou será que o monopólio das empresas não gera danos?
Paulo Brack - 07/07/13 - 20:16
A maior parte dos membros da CTNBio quando se trata de OGMS na agricultura se debruça a premissas reducionistas e profundamente equivocadas derivadas de uma agricultura XENOBIÓTICA, que está sendo responsável pelo aumento de mais de 70% do uso de agrotóxicos no Brasil, em cerca de 10 anos. Nosso país a partir de 2009 se tornou o maior consumidor de herbicidas e inseticidas do Mundo (1 bilhão de litros de agrotóxicos), apesar do advento dos transgênicos. A CTNBio é acusada, infelizmente, de ter em sua composição uma maior parte de cientistas não comprometidos com a biossegurança. Fica difícil de defendê-la quando vimos que acabou aprovando desde 2007 uma proposta genérica de "monitoramento" de transgênicos de uma página e meia, sendo obrigada pela justiça a ter que refazer posteriormente o trabalho, sem falar em aprovações débeis, com críticas profundas desconsideradas, como o caso do feijão-transgênico da Embrapa muitas variedades de eventos transgênicos contestados mundialmente, com o o caso do milho NK 603 da Monsanto. E isso hoje está sem nenhum controle! Não existe segregação e tampouco possuimos as necessárias sementes convencionais quando for o caso de eliminarmos a CONTAMINAÇÃO DAS SEMENTES E A POLUIÇÃO GENÉTICA favorecida por este processo. Quem se beneficia com isso? A CTNBio estaria fortalecida se tivesse a preocupação em garantir decisões, sem conflitos de interesses, evitando a presença de membros ligados, financiados ou apoiados por empresas de biotecnologia, as quais desenvolvem a venda-casada (semente e herbicidas) ou sementes patenteadas por grandes oligopólios da vida. Cabe acessar a reportagem de Verena Glass (ttp://www.mst.org.br/taxonomy/term/325). Infelizmente, se constata que a CTNBio parte de uma visão reducionista e cartesiana: para cada "praga" ou "erva-daninha" (inerentes às monoculturas quimicodependentes) poderemos dispor de uma "solução" transgênica. Esta agricultura, que encara nossa biodiversidade como inimiga, se utiliza destas pseudo-soluções para ter sobrevida ao seu próprio esgotamento. Se os consumidores continuarem a exigir alimentos sem os riscos crescentes derivados dos OGMs e seus agrotóxicos (como o 2-4 D que volta na pauta da CTNBio), o que vai sobrar da agricultura brasileira dos grãos convencionais?
Luiz Jacques Saldanha - 09/07/13 - 18:05
Caros amigos da EcoAgência. Ao se ler a entrevista do dr.Paulo e depois ler o comentário do prof.Paulo Andrade se vê duas visões de mundo. Uma está voltada para o bem público independentemente do interesse individual de uma percepção da ciência. Já a outra se acha completamente autorizada pela sociedade global para implantar tecnologias que em seu ponto de vista científico são excelentes. Assim, somos transformados por este tipo de visão que resulta autoritária e autocrática, em campos de prova já que lança em todo o planeta estes experimentos que resultam somente vantajosos para uma parcela mínima da sociedade, por causalidade, os 'donos' das tecnologias. E os técnicos que estão sendo pagos pelo dinheiro público, acabam favorecendo uma só visão de mundo como tem sido com as substâncias que alteram hormônios e abundam em todos os produtos de cuidado pessoal, infantis, de limpeza etc., e que estão definitivamente feminizando os machos e masculinizando as fêmeas. Agora estes avanços parecem ser irrecusáveis porque a sociedade está imersa nestas 'soluções', sem um mínimo de senso crítico, e que lhe atinge no âmago de sua sobrevivência. Honro a EcoAgência porque abre espaços para as falas que são emudecidas pela grande mídia. Grato e vamos em frente, Luiz Jacques, cidadão e pai.
Mª da Conceição de Araújo Carrion - 11/07/13 - 16:35
A entrevista do Professor Kageyama veio reforçar a impressão que já se tinha da atuação da CTNBio: instrumento antes dos interesses das empresas ligadas à biotecnologia do que instrumento de defesa da saúde e da segurança alimentar da população brasileira. Esta questão do quórum realmente é absurda, tratando-se de decisões com alto impacto para a sociedade. Demonstra a tentativa de facilitar a aprovação de autorizações que atendam aos interesses das empresas da área.. Está faltando maior transparência e ampla informação ampla para o público das decisões e ações da CTNBio, bem como uma composição do plenário do órgão mais representativa da sociedade.
Paulo Andrade - 06/04/14 - 16:54
Passado quase um ano desta postagem a EcoAgência não abriu espaço para que a CTNBio mostrasse como é realizado o seu trabalho, em anteposição às informações um tanto distorcidas do Dr. Kageyama. Uma pena, porque este tipo de viés e de agendamento de mídia não contribui para o conhecimento da questão. Para os leitores que quiserem saber o que faz a CTNBio e como suas decisões não diferem de todas as demais agências de avaliação de risco oficiais do Mundo, enviamos os links para as postagens sobre estes assuntos. Boa leitura http://genpeace.blogspot.com.br/2012/03/o-que-cabe-ctnbio.html http://genpeace.blogspot.com.br/2014/03/a-ctnbio-nao-decide-diferente-dos.html
Eliege Fante - 01/06/14 - 12:20
Prezado Professor Paulo Andrade! Assim que o senhor compartilhar conosco o seu artigo certamente será publicado na EcoAgência assim como são publicados os seus comentários. Atenciosamente, equipe de editores da EcoAgência.
  
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Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
 
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