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Copa 2014

Sábado, 06 de Julho de 2013

 
     

Movimentos sociais e moradores da periferia caminham juntos em Porto Alegre

  

Pelo caminho, terrenos com casas demolidas para a realização de obra e protestos dos moradores: "Sem remoção! / A casa é minha / a Copa não!”

  

Ramiro Furquim/Sul21    
Ney Fulgêncio vive há 22 anos na Vila Cruzeiro e terá que deixar sua casa, onde também funciona a oficina que comanda


Por Iuri Müller, Samir Oliveira e Ramiro Furquim - Sul21

Nas ruas da Vila Cruzeiro, na Zona Sul de Porto Alegre, mais de mil militantes se manifestaram nessa quinta-feira (04/07) contra as remoções nas cercanias da Avenida Tronco e as consequências das obras para a Copa do Mundo de 2014. Construído em conjunto pelo Bloco de Luta pelo Transporte Público e o Comitê Popular da Copa, o ato contou com expressivo apoio dos moradores do bairro e integrantes das organizações que, nas últimas semanas, coordenam os protestos pelo passe livre no transporte público da cidade. A caminhada passou também pelo bairro Cristal e teve o seu fim nas proximidades do Barra Shopping – sem registro de incidentes graves durante todo o percurso.
 
A concentração se deu nos fundos do posto de saúde da Vila Cruzeiro, local de encontro para militantes de partidos políticos e organizações sociais no ato desta noite. Perto dos 18 horas, horário marcado para o início da mobilização, o apoio dos moradores da comunidade ainda era tímido – muitos se aproximavam do carro de som que convocava os manifestantes, mas sem tirar os pés da calçada. Dono de uma oficina, Ney Fulgêncio Lopes Moura, 61 anos, observava a aglomeração de pessoas da porta do seu estabelecimento. “O pessoal aqui ainda tem muito temor de protestar, pensam que isso pode piorar esta situação (das remoções) que já é complicada. Mas eu acho maravilhosa a ideia de pressionar a Prefeitura com esta manifestação”, conta.
 
Ney, como dezenas de vizinhos da Avenida Tronco, terá a vida modificada pelos planos do poder público. Muitas das casas por onde passam as obras da duplicação da avenida já estão no chão: ficaram os restos do que um dia foram paredes, portas e janelas. Muitos dos moradores questionam a atuação da Prefeitura no processo, bem como os valores que envolvem os ressarcimentos. A urgência da situação e o diálogo com o Comitê Popular da Copa – que lançou a campanha “chave por chave”, que incentiva os moradores a deixarem as residências apenas com a garantia da nova casa em mãos – fizeram com que o Bloco de Lutas deixasse o Centro de Porto Alegre e organizasse a manifestação na Zona Sul de Porto Alegre.
 
A intensidade da participação dos moradores do bairro no ato ainda era uma incógnita antes dos primeiros passos da marcha. Desde o primeiro momento, no entanto, foram vistas diferenças em relação ao panorama que tem aparecido nas ruas centrais de Porto Alegre em dias de protesto. O comércio não só estava de portas abertas como parecia receptivo aos manifestantes. Houve quem preparasse espetinhos de churrasco para vender durante a caminhada, enchesse várias caixas de isopor com bebidas geladas e, em alguns casos, colasse cartazes – no tom da manifestação – na porta das próprias lojas. A placa de uma estofaria, por exemplo, pedia que o prefeito José Fortunati não esquecesse a população do bairro.
 
Por volta das 19 horas, os militantes passaram a caminhar pela Vila Cruzeiro. Ainda eram pouco mais de quatrocentos, mas logo o barulho da bateria e dos cânticos fez com que mais pessoas saíssem das casas e se juntassem à manifestação. “A Copa do Mundo é nossa / mas com despejos não há quem possa / eu quero ficar no morro / na minha casa / e ver o jogo”, cantavam. Gritos que foram ouvidos nas manifestações de junho – mês em que milhares de pessoas foram para as ruas semanalmente – também soaram na Cruzeiro, adaptados para a questão da moradia e a força da periferia. Na Avenida Divisa, o protesto já era formado por mais de mil pessoas. “Ih, fodeu, a Cruzeiro apareceu”, cantavam os moradores mais jovens, que acompanhariam a maior parte do trajeto.
 
A reportagem do Sul21 não registrou qualquer conflito entre os manifestantes na longa caminhada pelo bairro – a Brigada Militar, por sua vez, acompanhou a marcha de forma discreta e quase não foi vista. Na Avenida Icaraí, por volta das 21 horas, a manifestação perdeu força com a saída de parte dos moradores da comunidade da Vila Cruzeiro, que optaram por retornar às suas casas. “A nossa caminhada acaba aqui, conseguimos divulgar a nossa luta e marcar uma posição”, disse uma moradora. A maior parte das organizações sociais, no entanto, seguiu com o carro de som pela Avenida, em direção ao Hipódromo do Cristal e o Barra Shopping.
 
A ideia do Bloco de Lutas era denunciar a entrega da área do Cristal para a iniciativa privada, quando poderia beneficiar as famílias da região. “Essa área é pública e já temos notícias de que o governador Tarso Genro destinou para a iniciativa privada”, bradou um dos manifestantes no microfone. As marcas da desigualdade social, presentes no trajeto pela visibilidade do contraste, também foram lembradas por uma militante: “aqui mora cavalo que come chocolate, que custa mais de R$ 300 mil, enquanto as famílias da Tronco estão sem casas para morar”. A mobilização teve fim pouco antes da entrada principal do shopping. Já após a dispersão, um carro foi quebrado na Avenida Chuí e paradas de ônibus sofreram danos.
 
Famílias relatam as contradições do despejo
Cerca de mil e quinhentas famílias estão sendo afetadas pelas obras que envolvem a duplicação e extensão da Avenida Moab Caldas, conhecida como Avenida Tronco, na Vila Cruzeiro. Para a Prefeitura de Porto Alegre, trata-se de “talvez a iniciativa de maior relevância no conjunto de obras a ser concluído até 2014”, conforme consta no site da Secretaria Extraordinária para a Copa do Mundo (SECOPA). Para os moradores do entorno, o empreendimento se relaciona diretamente aos despejos.
 
De acordo com a descrição da SECOPA, “a Avenida comporá o anel viário em torno do Estádio Gigante da Beira-Rio, (…) facilitando o acesso ao estádio” e o projeto está inserido em um contexto de “recuperação urbano-ambiental de ampla área de vulnerabilidade social da cidade, através da construção de edifícios ao longo da via” para reassentar as famílias impactadas pela obra.
 
O Portal da Transparência da Capital demonstra que estão orçados R$ 19,9 milhões para o reassentamento das famílias da comunidade. O custo total da obra é de R$ 129,3 milhões. Durante o protesto desta quinta-feira (4), a reportagem do Sul21 conversou com moradores impactados pelo empreendimento. Todos relataram que a interlocução com a prefeitura tem sido difícil e tem se dado, basicamente, através do escritório do Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) na comunidade.
 
A família da gari Josiane Cabral vive no que restou de sua residência em frente ao posto de saúde da Vila Cruzeiro. A casa da mãe do seu marido, que ficava em frente à sua, foi demolida há quatro meses. O muro que protegia o espaço também. Como resultado, a família permanece ocupando o espaço que possui praticamente em um terreno baldio, cheio de destroços. “Não existe uma noite em que os ratos não entrem nos nossos lençóis. Como não tem mais muro, as pessoas mijam nas nossas paredes e já tentaram arrombar a casa”, lamenta.
 
O casal aguarda desde janeiro o desfecho de uma permuta com outra moradora da vila. O procedimento, mediado pelo DEMHAB, deve garantir uma nova residência para Josiane, o marido, o cunhado e o filho pequeno. Para a gari, o protesto organizado na comunidade é positivo. “É uma boa. Com essa manifestação pode ser que mude, vai sair na televisão”, considera.
 
A presidente da União das Associações de Moradores de Porto Alegre (UAMPA), Bruna Rodrigues, também é uma das atingidas pela duplicação da Avenida Tronco. Ela informa que muitos moradores da região estão migrando para a cidade de Viamão, para o bairro Lomba do Pinheiro ou para o litoral – locais onde conseguem adquirir uma propriedade com os R$ 52 mil liberados pela Prefeitura para cada residência desalojada.
 
Bruna, que integra o Comitê Popular da Copa e o movimento “chave por chave”, aponta uma contradição entre a realização do megaevento esportivo e o tratamento dispensado aos moradores da Vila Cruzeiro. “O povo que vai receber os povos está sendo massacrado”, critica. Ela não esconde o desconforto com o presidente da associação local de moradores, Michael Santos, que disse, em declarações à imprensa, que não apoia a manifestação desta quinta-feira. “Algumas lideranças não são atingidas pela obra. Aí fica fácil adotar esse discurso”, contrapõe.
 
Ney Fulgêncio Lopes Moura mora há mais de vinte anos na Vila Cruzeiro. Proprietário de uma oficina de portões eletrônicos, ele conta que, com suposto aval do DEMHAB, chegou a investir R$ 3 mil em adiantamento para a aquisição de uma casa – já que a sua terá que ser demolida. Mas, até agora, não soube de mais notícias da nova moradia. “Simplesmente nos ignoram”, afirma.
Sul21 - EcoAgência

  
  
  
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