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Observatório de Jornalismo Ambiental

Quarta-feira, 06 de Janeiro de 2021

 
     

Toda pauta é ambiental: Natal, consumo e o meio ambiente em liquidação

  

Somente com uma visão sistêmica nas redações, que liga os pontos, que relaciona diferentes esferas da vida, a causa ambiental poderá ser tratada com profundidade e seriedade

  

Fonte: Luiz Antonio Toni por Pixabay     


Por Ursula Schilling*

O planeta tem limites. Essa deveria ser a premissa para tudo o que fazemos: trabalhar, produzir, consumir e, claro, informar. Mas caminhamos a passos ligeiros na direção oposta a isso. Agimos como se tudo o que a Terra e a terra nos fornecem fosse inesgotável. E pouco valesse.

É uma lógica, conforme destacou Reges Schwaab no seu texto da semana passada para este Observatório (se você ainda não leu, leia), “reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências “.

Compramos, usamos pouco, descartamos e compramos de novo, mesmo que algo de qualidade muito duvidosa, que custe pouco ou muito) e que (talvez) tenha explorado trabalho escravo ou mão-de-obra infantil, para que possamos saciar, temporariamente, nossa sede de ter algo, não importa o que.

Como um item de vestuário, por exemplo, custa menos do que a matéria-prima, o processo de manufatura, a confecção e a etapa de distribuição? No mínimo, é uma conta que não tem como fechar. No caso de eletroeletrônicos, tomamos como normal a obsolescência programada.

Seguimos nesse movimento e nos esquecemos de que, como muito bem lembrou recentemente em suas redes sociais o jornalista André Trigueiro, quando jogamos algo fora, por mais que aquilo “suma” da nossa vista, não existe “fora”. Podemos até ignorar o que não é nossa realidade imediata, mas isso não significa que não existam ilhas de lixos de têxtil, eletrônico e outros, em algum lugar altamente degradado.

No Natal, e em outras datas comemorativas que foram mercantilizadas, transformadas em eventos comerciais e não mais sociais, familiares e festivos, não é diferente. Em 2020, apesar da dita crise, e de uma pandemia em níveis ainda críticos, notícias de diversos sites dão conta de que o comércio pretende comemorar as vendas ou, pelo menos, correr para isso.

Mesmo com o aumento dos casos de Covid-19, o horário dos estabelecimentos, em Porto Alegre, por exemplo, foi ampliado. Defendemos, sustentando o discurso da indústria e do varejo, e que só interessa aos ricos, que é preciso fazer a roda da economia girar, que é preciso consumir para gerar empregos, que é com emprego que a sociedade será mais igualitária e as pessoas terão uma vida mais digna. Por favor, me diga, com fatos e dados, se vivemos num mundo justo e igualitário e se somente eu estou no lugar errado.

Antes de manifestações reacionárias, deixo registrado que não questiono a importância do trabalho, da renda (digna), de bens essenciais para uma vida também digna. Tampouco, que não celebremos datas, que não tenhamos nossos ritos e que não presenteemos pessoas queridas. A questão aqui é vivermos numa eterna black friday e tratarmos o consumo como solução. Não paramos para enxergá-lo, assim como está estabelecido, como um grande causador da degradação da natureza, entendida a natureza como tudo que é vivo na face da mãe Gaia, incluindo nós.

É por isso que o jornalismo tem, para o bem e para o mal, um papel preponderante nessa cadeia. O que se vê, inclusive a partir de diversas análises deste canal, é uma mídia tradicional, e geralmente de massa, que sustenta, apoia e dissemina esse discurso dominante e contribui para manter relações de dominação e produção.

A cada Natal, os cidadãos, nesse contexto, meros consumidores, são conclamados a girar a roda da economia. O meio ambiente, que passa ao largo das abordagens, continua aqui, sendo explorado, esgotado e ignorado pelo frenesi coletivo do consumo. Das editorias de economia, de onde pululam projeções, comemorações de alta nas vendas, supersafras e crescimento no PIB, deveriam também surgir perguntas como “e quando a (in)esgotável fonte de recursos acabar?”.

Aqui, mais uma vez, o jornalismo ambiental, destacados dele dois eixos, desponta como um norte. Somente com uma visão sistêmica nas redações, que liga os pontos, que relaciona diferentes esferas da vida, a causa ambiental poderá ser tratada com profundidade e seriedade. Ao mesmo tempo, para que isso ocorra, é preciso que essa seja uma pauta transversal a todos os assuntos possíveis. Ou seja, economia, cultura e política são editorias ambientais, sim. E muito. Cabe ainda um terceiro eixo: nada disso ocorrerá sem uma adequada formação do jornalista.

Não há respostas prontas, mas é certo que, se superarmos um modelo de educação (que também reverbera no jornalismo) que memoriza, replica e não questiona, um modelo que teme o antagonismo, podemos tentar romper barreiras.

É um assunto complexo, que move paixões e, principalmente, que mexe com interesses e forças políticas e econômicas que parecem impossíveis de superar. Mas é preciso começar pelo começo. Pela reflexão, pelo questionamento, pela crítica, é desacomodando velhos e novos conceitos, que nem sabemos se não nossos, e colocando em xeque o status quo, que forças de oposição poderão começar a se mover no sentido de reverter a dramática situação inúmeras vezes aqui constatada.

Não será uma virada de chave fácil, mas, cedo ou tarde, compreenderemos que habitamos TODOS o mesmo planeta. Espero que não tão tarde. (seja modesto e crítico nas suas compras de Natal)

 

* Este texto foi produzido por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental". A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS).

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