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Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

 
     

“Não somos atrasados: somos felizes e produtivos”

  

Para a integrante da União Pela Defesa do Rio Camaquã (UPP), Vera Collares, o convívio harmônico com a biodiversidade é a vocação verdadeira dos municípios, no Pampa gaúcho, ameaçados por projeto de mineração da Nexa Resources

  


Por Eliege Fante , Ângela Camana e Débora Gallas - especial para a EcoAgência

 

O Dia da Biodiversidade (22 de maio) foi comemorado com o debate sobre “Onde está o desenvolvimento?”. A Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, a Fabico, recebeu estudantes de diversas áreas acadêmicas, ambientalistas e integrantes da União Pela Defesa do Rio Camaquã (UPP). A produtora rural Vera Collares dividiu a mesa com Felipe Vargas que é doutor em Sociologia, pós-doutorando em Desenvolvimento Rural e membro do TEMAS (Grupo de Pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). O professor e pesquisador do Instituto de Biociências da UFRGS, Paulo Brack, fez a mediação. Ele também é orientador do projeto de Extensão Grupo Viveiros Comunitários e coordenador do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (INGÁ).

 

Vera Collares apresentou a luta em favor da vida representada pela biodiversidade pampiana sob ameaça do projeto de mineração de zinco, chumbo e cobre da Nexa Resources, uma joint venture entre Nexa Resources e Mineração Iamgold Brasil. O projeto Caçapava do Sul, então apresentado pela Votorantim Metais em 2016, ainda espera pela Licença Prévia; a fase é de complementação de documentos ao Estudo de Impacto Ambiental. A resistência da comunidade regional tem mostrado as inconsistências do modelo de desenvolvimento apoiado pelo Governo de José Ivo Sartori (MDB), que está finalizando o Plano Estadual de Mineração, um documento que mapeia áreas a serem ofertadas às mineradoras e que se situam no bioma Pampa. “É uma inverdade dizer que há vocação para a mineração. Há quase 300 anos nós damos sequência à atividade dos nossos antepassados que é a agropecuária familiar,” disse, destacando a ovinocultura, caprinocultura, bovinocultura, orizicultura, artesanato principalmente de lã de ovelha, gastronomia, e o turismo rural ao longo dos 480 km do rio Camaquã que abastece 28 municípios do Rio Grande do Sul.

  

Vera integra a Agrupa uma das dezenas de entidades da região e do Estado que constituem a União Pela Preservação (UPP). Contou que só no distrito de Palmas, onde reside, 200 famílias correm o risco de ser atingidas se o projeto de mineração for implantado. “Como vão trazer desenvolvimento se querem acabar com o nosso modo de vida? Nós conhecemos a biodiversidade, a flora e a fauna, e é porque temos um convívio harmônico que aquela região é uma das mais preservadas do Estado,” disse.

 

Pesquisas científicas de Ecologia e Botânica da Rede Campos Sulinos sobre a pecuária do Pampa, com a parceria de dezenas de proprietários, confirmam as palavras de Vera: o manejo pastoril adequado contribui para a ocorrência das espécies nativas nas paisagens campestres, e a vegetação, por sua vez, serve como forragem na criação animal. Essa relação garante a estabilidade do ecossistema.“A água do rio Camaquã é limpa e pescamos, tomamos banho, fazemos turismo, porque há um ciclo virtuoso entre o animal pastador e o campo, já que o rejeito dele é o esterco, que aduba o campo e faz nascer as gramíneas que alimentarão os rebanhos,” explicou, alegando que a mineração, se licenciada, vai desvalorizar toda a atividade produtiva regional. “A nossa atividade econômica é perpétua, não somos atrasados. Já a mineração por ser de ‘colheita’ única deveria ser melhor pensada em benefício das nossas próprias necessidades e interesses do país, que é o contrário da exploração e exportação por corporações internacionais,” concluiu.  

 

Felipe Vargas propôs a reflexão sobre o que é o desenvolvimento hoje e como esta ideia foi construída ao longo de décadas. De acordo com o pesquisador é comum pensarmos o desenvolvimento a partir daquilo que nos falta, negligenciando o que temos no nosso modo de viver, nossas práticas cotidianas e sabedorias locais. Como exemplo mencionou índices que ao medirem o desenvolvimento preocupam-se em assinalar a carência e a falta de crescimento econômico do Brasil, mas não notam que é um dos países mais biodiversos do mundo. Assim, a própria noção de desenvolvimento e o que chamou de roupagens como sustentável, econômico, humano, entre outros, é construída de forma a manter algumas nações no permanente subdesenvolvimento, marcando-as justamente pela falta. “O desenvolvimento cria a ideia de lugares parados, atrasados, de que é preciso maior geração de renda e agilidade nos processos como se as pessoas do lugar não fossem capazes de se gerir,” disse.

 

Explicou que a mentalidade do desenvolvimento entende o Estado como o agente que operacionaliza as alianças com os setores empresariais para fomentar negócios de exploração da biodiversidade. Assim foram criados os megaprojetos como os de hidrelétricas nos anos 70. “O desenvolvimento dita um modo de governo dos sujeitos e dos territórios, um modo de pensar, um modo de consumir.” Desta maneira, Felipe entende que os projetos de aceleração do crescimento econômico conduzem à acelerada perda da biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos e ambientais bem como dos distintos modos de viver das comunidades. “Ao mesmo tempo, estas empresas do desenvolvimento se autorizam a indicar os manejos adequados nos lugares, e a representar as próprias comunidades atingidas pelo seu negócio,” disse.     

 

Segundo o professor Paulo Brack eventos como este vão continuar se multiplicando e já há datas previstas para os próximos meses. O objetivo é alertar toda a população, mesmo a indiretamente atingida pelo projeto de mineração debatido nesse Dia da Biodiversidade. “O ser humano faz parte da biodiversidade, por isso as atividades humanas precisam ser integradas ao meio ambiente,” disse. Em ano de eleição, ele criticou a lógica predominante nos partidos políticos de busca por uma retomada do crescimento econômico infinito desconsiderando a finitude dos recursos naturais do planeta, que já enfrenta extinções e mudança climática provocadas pelas atividades humanas. “A ideia da acumulação se tornou uma doença e o Brasil um mero exportador de matérias-primas, as commodities. Mas existem outros modos de viver a serem valorizados,” concluiu.

 

A realização do evento foi do Grupo Viveiros Comunitários com o apoio da Extensão UFRGS - Prorext, InGá Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais Apedema RS GPJA - Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e Núcleo de Ecojornalistas.

 

Leia também:

Campo sob manejo convencional com alta diversidade de espécies

Imagens do Rincão do Inferno em Palmas, Bagé (RS)

Reportagem Especial Rio Camaquã da TV Assembleia Legislativa - RS

Publicação Os Campos do Sul com registros de Caçapava do Sul e região pampiana ameaçada pela mineração

 

EcoAgência

  
  
  
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