Untitled Document
Boa tarde, 18 de fev
Untitled Document
Untitled Document
  
Untitled Document
EcoAgência > Artigos
    
 
Terça-feira, 27 de Maio de 2014
  
Comentários sobre o filme "O veneno está na mesa II"

O filme não demonstra que nos últimos 50 anos perdemos muito de nosso comportamento cidadão, compromisso cultural e patrimonial para uma violência organizada

  
Por Sebastião Pinheiro
  

Descobrir “o cego dormindo e o rengo sentado” é importante, mas manter o Eremildo à distância, primordial. Não sou crítico de arte, mas soldado na luta pela consciência ambiental, que sabe que não se deve informar ou armar mídia e inimigos, já que eles trabalham com as forças e poder da violência[1]. Fui convidado pela AGAPAN ao lançamento da continuação do filme de Silvio Tendler “O veneno está na mesa 2”. No público me era perceptível o sorriso ingênuo de velhos ambientalistas e a face taciturna de líderes operacionais e intelectuais de grupos políticos.  Um filme é obra artística, repito, expõe níveis de enigmas, cifras e códigos de violência. Tem custos totais exorbitantes e os operacionais fora do alcance de entidade ou cidadãos, mas possibilita seu arranjo no interesse dos organizadores, financiadores e outros.

Está cada vez mais difícil o uso das palavras. O conceito ambiental da AGAPAN (autonomia e autocontrole da violência mítica sobre a natureza) é diametral ao do jornalista André Trigueiro do Globo News em nosso cotidiano, esse preparatório ao Estado Híbrido do Século 21, onde a violência deixará de ser percebida e o produto mercantilizado. – Corrupção!

Há um transfundo político-ideológico na temática que necessita ser focado. Temos leis estaduais, nacional que nunca foram aplicadas por nenhum governo, mas são cantadas em prosa e verso como as melhores leis do mundo (violência Código).  Cabendo a questão: São as melhores porque nunca foram aplicadas (violência mercantil) e há interesse que assim permaneçam?

O veneno não deixou de ser perigoso, embora não o seja como era na epidemia (violência) de intoxicações agudas dos anos 70 e 80. Contudo o interesse é que repitamos como no filme o que a Nestlé fez na Guatemala em 1977 quando denunciou a contaminação do leite materno por DDT.  Tinha o intuito de eliminar a concorrência do leite materno ao seu negócio mundial.  O filme repete a mesma cantilena. Discutindo o leite materno ficamos longe de saber o que é disruptor endócrino, obsógenos, alergias ou influência das radiações eletromagnéticas (micro-ondas) sobre os alimentos com resíduos de agrotóxicos. Para a violência financeira e cultural, questões centrais, discutir superficialmente os agrotóxicos é menos prejudicial que tomar atitudes e mudar a realidade, já que ele é, hoje, um problema menor que pode ser solucionado única e exclusivamente através do consumo racional no interesse da indústria (talvez por isso a Campanha seja PERMANENTE e PELA VIDA), quando antes ele era um problema por sua origem (violência militar) e a existência estava fora da lei ou nela colocada pela violência mercantil. Pois, em 16 de janeiro de 1992, o D.O.U publicou a Portaria Nº03 da Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária assinada por Paulo Roberto Miele ratificando as Diretrizes e Orientações para o Registro de Agrotóxicos, publicada no dia 13 de dezembro de 1991 na Secção III, para atender aos interesses das empresas que se a lei fosse aplicada seriam prejudicadas. Estas diretivas ilegais do Governo Collor mudaram a classificação Toxicológica e os das classes I e II passaram a ser classe III e IV. Já se passaram 22 anos e continua ilegalmente vigente, e corrupta, embora isso tenha sido denunciado reiteradamente. 

No Governo Lula, o Ministro Roberto Rodrigues, em 21 de julho de 2004, nomeou o presidente da ANDEF, Cristiano Walter Simon, presidente da Câmara Temática de Agrotóxicos. O resultado pode ser visto que o crescente consumo de venenos nos levou a ser o primeiro consumidor do mundo a frente dos EUA, que possuem uma agricultura oito vezes maior que a brasileira. Somos o primeiro país consumidor sem poder perceber a violência que isso significa. Não nos preocuparmos em saber por que o primeiro país consumidor é agora o segundo e projetando que dentro em breve será o terceiro consumidor. Lá tudo começou com Carter em 1978. (O documento está em português traduzido em 1983 pela SEPLAN (Delfim Netto), CNPq continuou com Reagan, Bush, Clinton, Bush e Obama sem solução de continuidade na busca da quadratura do círculo.)

A “abertura” por Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina” induz para a uma violência ultrapassada pela realidade da globalização, ignorando que quem participa de movimentos sociais necessita projetar os instrumentos de luta para uma perspectiva de futuro, tão distante quanto for a necessidade de conscientização, educação e formação de política pública autônoma e não ficar nos remorsos ou nas mãos de burocratas que querem se eleger para cargos políticos.

A mensagem (subliminar) no primeiro filme leva a uma violência (corrida) inconsciente (alienante) ao alimento sem agrotóxicos, elevação de preços, com elitização consumista, de interesse dos supermercados, corporações internacionais de certificação e bancos, destruindo 30 anos de trabalho da Cooperativa Ecológica Coolméia (tida como alienadora e burguesa). Sua apresentação da alternativa (agroecologia) é pueril, bucólica, desenraizada de qualquer contexto social, mera ilusão messiânica, embutida na violência mítica que domina esse país desde o “descobrimento”.  Sendo assim, os depoimentos são “banais”, muito no estilo da TV brasileira e não trazem elementos para a mudança e autocontrole, apenas satisfazem o consumo e o “fazer”, muito apreciado na academia nacional. Há uma prestidigitação indicando que a “agricultura sem os venenos” seja a senda luminosa para o Xanadu. No entanto, isso encobre a ausência de qualquer ação política ou tecnológica para fortalecer esse objetivo, como a Fixação de Carbono ao Solo (Makoto Ogawa, Joseph Lehmans) ou o domínio de micróbios na Terra Preta de Índio, que preocupa os grandes bancos internacionais e o Council on Foreign Relations. Ao mesmo tempo em que cria a imagem muito comum nas cabeças infiltradas, induzidas e manipuladas que é “brincadeirinha irresponsável”, que não pode garantir a envergadura dos futuros “econegócios” e passamos 30 anos brincando de “transição” por neologismos (alternativa, orgânica, biológica, regenerativa e, por fim, Agroecológica). O filme não demonstra que nos últimos 50 anos, perdemos muito de nosso comportamento cidadão, compromisso cultural e patrimonial para uma violência organizada e que houve uma mudança na polaridade política internacional com a supressão da Guerra Fria e a substituição pelo Consenso de Washington. Houve uma mudança de matriz tecnológica da agroquímica para a Biotecnologia e não soubemos utilizar o conhecimento e sabedoria acumulada para as novas estratégias na questão de sementes nativas e transgênicas, pois o oportunismo de militantes partidários nos governos utilizou a luta em benefício pessoal de forma muito incompetente, manipulados à distância e calcados no ódio e intolerância em manifestações pessoais que legitimam insatisfações coletivas.

Agora na continuação, o filme repete de forma mais sofisticada a problemática dos agrotóxicos, também ultrapassada, pretendendo esconder causa e efeito ou responsabilidade e culpa. Pois, traz a visão messiânica e poética de resistência dos nordestinos contra suas elites, situação não compreendida no sul do Brasil, além da piedade e solidariedade.  Entretanto, esta visão vem sendo construída nos últimos doze anos como plataforma governamental e política para “movimentos sociais” alinhados através de aparentes políticas públicas continentais para ONGs identificadas e aparelhadas (Fome Zero, Soberania Alimentar, “upgrade” da Segurança Alimentar do Grupo Rockefeller), que envolve merenda escolar, inclusão mercantil no crédito rural e possibilidade para escassos agricultores em todo o país. O filme é eloquente na denúncia com as estatísticas dos recursos destinados aos agronegócios e as migalhas aos agricultores (de suas ONGs milionárias), mal identificados como agricultura familiar, como se o governo não fosse o responsável final pelas políticas públicas e gestão no país há doze anos.  É deplorável.     

Na década de 70 o jornalista Carlos Alberto Kolezca liderou a luta pela Conservação do Solo. Mas não houve organização social de sustentação da Comissão de Conservação do Solo, logo sequestrada para servir aos interesses mercantis substituindo as Cooperativas (de Trigo, Feijão e Milho) criadas no Estado Novo e usadas pela Ditadura de 64 para estabelecer o crédito centralizado, energia de petróleo e monocultura da soja.  Elas que tinham até um superporto em Rio Grande foram enfraquecidas, eliminadas e substituídas pela vendedora de insumos, serviços e tecnologia de interesse das corporações e trades de grãos. A Cooperativa Ecológica Coolméia e sua feira pioneira (maior no mundo à época) foram fechadas, descaracterizadas, não por uma dívida de 165 mil reais e gestão corrupta, mas por criar encômios aos interesses hegemônicos das corporações nucleadas na OMC sob tutela do COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS.

No debate escutei que, os movimentos sociais anunciaram acordar para a questão dos agrotóxicos, da agricultura sem venenos. Isto deve ser entendido, que eles desejam conduzir a questão sob seu controle e comando. A suspeita é de indução e manipulação para nos fazer perder mais tempo, depois de doze anos de governo e sem uma reforma agrária decente essa pretensão é cretina, para dizer o mínimo. Esperar que o acervo, memória e obra de nossos movimentos sociais reconhecidos como vanguarda mundial até no plano tecnológico se atrelem a uma condução inoperante, desonesta e incompetente é fazer pouco da inteligência social e nos remete à proclama da Junta Tuitiva na libertação da Bolívia de 1809, época em que a elite recebeu com loas D. João VI e seus fugitivos, e o Brasil passou a Reino.

Ela diz: “Compatriotas: Hasta aquí hemos tolerado una especie de destierro en el seno mismo de nuestra patria; hemos visto con indiferencia por más de tres siglos sometida nuestra primitiva libertad al despotismo y tiranía de un usurpador injusto que, degradándonos de la especie humana, nos ha mirado como a esclavos; hemos guardando un silencio bastante parecido a la estupidez que se nos atribuye por el inculto español, sufriendo con tranquilidad que el mérito de los americanos haya sido siempre un presagio de humillación y ruina. Ya es tiempo, pues, de sacudir yugo tan funesto a nuestra felicidad, como favorable al orgullo nacional español. Ya es tiempo, en fin de levantar el estandarte de la libertad en estas desgraciadas colonias, adquiridas sin el menor título y conservadas con la mayor injusticia y tiranía. Valerosos habitantes de La Paz y de todo el Imperio del Perú, revelad vuestros proyectos para la ejecución; aprovechaos de las circunstancias en que estamos; no miréis con desdén la felicidad de nuestro suelo, ni perdáis jamás de vista la unión que debe reinar en todos, para ser en adelante tan felices como desgraciados hasta el presente.”.

Será que estamos em 1821 ou, melhor ainda, como Abel Rosenberg na Berlim, de 1923, no “O ovo da serpente” ou, ainda, em “Persona” de 1966, ambos de Ingmar Bergman?

 

P.S. Quando um professor respaldado por sua função diz que é necessário “flexibilizar a violência da avaliação de riscos dos agrotóxicos” (jornal Zero Hora, 22 de maio, p. 7-8, Propaganda de Paraquat), buscamos no Triângulo de Galtung a compreensão da parte 2 do filme, em que as bases estruturais e culturais diminuem através do acesso para que o triângulo isósceles fique com menor base e mais altura e a “ponta do iceberg” seja mais perceptível (violência direta: primeiro consumidor de agrotóxicos) esconda as outras mais estratégicas. É diabólico usar estertores sociais (ONGs) como resistência contra as violências mascarando a inação ou políticas públicas, já há muito impedidas. Repetimos: é imperioso manter os “Eremildos da vida” à distância.

Saques, intolerâncias, linchamentos, tumultos e revoltas são parte da destruição do tecido social que dia a dia se esgarça em todo o mundo, e em particular na América Latina, onde antes a violência individual emergia como revolta sob o efeito da embriaguez, e a coletiva no sufocar dos anseios e oportunidades. Devaneio: Por mais que eu estude não consigo entender o valor estrutural e cultural da Segunda Emenda (da Constituição dos EUA) vigente desde os tempos colônias (1689). Será por ela que fomos desarmados?  Faça-se a Luz. 

      

 

 



[1] La violencia es el tipo de interacción humana que se manifiesta en aquellas conductas o situaciones que, de forma deliberada, aprendida o imitada, provocan o amenazan con hacer daño o sometimiento grave (físico, sexual, verbal o psicológico) a un individuo o a una colectividad; o los afectan de tal manera que limitan sus potencialidades presentes o las futuras.  Se trata de un concepto complejo que admite diversas matizaciones dependiendo del punto de vista desde el que se considere; en este sentido, su aplicación a la realidad depende en ocasiones de apreciaciones subjetivas. El término en español es un cultismo; se corresponde con el sustantivo latino violencia, que deriva del adjetivo violens, -entis, que significaba «impetuoso», «furioso». En última instancia, el origen latino de la palabra es el sustantivo vis(«fuerza», «poder», «potencia»); Cf. myetymology.com, «Etymology of the Latin word violentia».  WIKIPEDIA.

  
             
Untitled Document
Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
           
 
 
  
  
  Untitled Document
 
 
Portal do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul - Todos os Direitos reservados - 2008