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Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010
  
O meio ambiente exige que a consciência seja convertida em ação

O ser humano pode ser caracterizado como cego, como inconsciente, como pessimista ou otimista demais, quando se fala da sua relação com o meio ambiente. Mas, independente do posicionamento adotado, o certo é que, os discursos que emanam das diversas áreas da sociedade convergem para necessidade de adotar uma nova postura menos destrutiva e mais altruísta

  
Por Leila Boscato Garcia
  

Onde está a natureza? A pergunta colocada pelo geólogo Rualdo Menegat avalia a estrutura física, cultural e sistêmica da sociedade e caracteriza o ser humano como cego. Cego diante do mundo que o cerca, do modo como vive e por que vive, dos danos que causa a si, ao planeta e aos outros seres vivos, mas, principalmente, cego diante dos sinais que a natureza apresenta. Mas, será cegueira ou uma espécie de consciência inconsciente? A tentativa continuada de alterar o comportamento inadequado da sociedade, em relação à natureza, esbarra num modelo estrutural mantido por governos, corporações e pelas decisões dos indivíduos.

É comum entre as diversas áreas de conhecimento e setores da sociedade tentar encontrar modelos ou métodos param promover a conscientização. Trata-se do resultado da educação ambiental, cada vez mais constante devido aos eventos ambientais desastrosos que abalam diversas localidades do globo. Neste momento, as pessoas reconhecem atitudes inadequadas e passam a ações menos prejudiciais. A diferença entre a cegueira e a consciência inconsciente é que, no primeiro caso, as pessoas negam seu papel e responsabilidade, observam as ocorrências com distanciamento, são expectadores. “As pessoas só assistem aos eventos, não se propõem uma reflexão sobre o que está ocorrendo”, observa Menegat.

Já no segundo caso, as pessoas reconhecem que suas ações são danosas, mas não alteram seu comportamento, ou seja, é quando a consciência não leva à ação. A socióloga Maria Cristina França afirma que os comportamentos diferenciados resultam de vários fatores, entre os quais, as condições concretas de existência, como origem, estrutura de classe, e escolarização ou o acesso desigual às informações, que condicionam o empobrecimento ou enriquecimento do conteúdo de antigas convicções. “Trata-se, nas duas possibilidades, de um grau maior ou menor de coerência interna,entre padrões de ação e de representação elaborados simultaneamente pelos grupamentos sociais nas suas práticas cotidianas”, conclui França.

Menegat aponta a adoção da cidade hipodâmica, proveniente da Grécia Antiga e expandida mundo afora ao longo dos séculos, como princípio para o modelo social baseado na exploração e consumo dos recursos naturais sem controle. “A cidade cortou os vínculos com a natureza, ela não oferece ao cidadão uma cosmovisão do lugar que ocupa e impede a leitura das paisagens”, explica Menegat. Outros elementos denotam o comportamento social com base na linerialidade do ciclo de extração, produção, distribuição, consumo e descarte dos bens e serviços. Além do antropocentrismo, a mundialização do capitalismo, após a Segunda Guerra Mundial que, por sua vez, emerge junto aos avanços científicos e tecnológicos e às preocupações ambientais. “A natureza não tem tapete”, argumenta Menegat. Contudo, todas as colocações ainda se mostram ineficientes para alterar os padrões de vida prejudiciais.

Afinal, como acabar com a cegueira e a consciência inconsciente? Menegat aposta no diálogo entre as culturas para criação de uma nova consciência, do papel e condição do ser humano diante do meio ambiente natural e artificial. França complementa fixando o desenvolvimento sustentável como foco do debate. “Deve-se avaliar os problemas ambientais globais e locais, interligando as questões de sustentabilidade e justiça estendidos a todas camadas da sociedade”, explica França. Outra alternativa, baseia-se na técnica do “rappor”, da persuasão, defendida pelo jornalista Fernando Antunes. É a tentativa de encontrar um ponto positivo nas ações negativas, individuais ou grupais, e convertê-lo em consciência e ação. Assim, não se utilizariam discursos educativos e invasivos para modificar as ideologias, mas uma condução à atitude correta com relação ao todo. Está aí inserido o conceito dos mapas individuais, ou seja, as referências pessoais, que não devem ser invadidas, mas conhecidas e reestruturadas através da reflexão.

Nas variadas perspectivas exige-se a alteração no comportamento dos sujeitos, sobre suas práticas cotidianas, que passa pela compreensão, conscientização e concordância do sujeito para obter novos princípios de orientação sobre suas práticas. Assim, depende-se de atos individuais e movimentos coletivos comprometidos com a promoção, sensibilização, e transmissão de conhecimento, cujas ações resultem em transformações. É uma tentativa permanente que, embora urgente, se faz ao longo do tempo, partindo do entendimento que não é o planeta que corre risco, mas os seres que dependem dele, a sociedade que pode perecer.

♦Leila Boscato Garcia é jornalista e participou, nos dias 20 e 21 de agosto, em Porto Alegre, do Curso de Jornalismo Ambiental promovido pelo Núcleo dos Ecojornalistas, NEJ-RS, que teve como palestrantes  os professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Fernando Antunes (Mestre em Comunicação Social) e Rualdo Menegat (Doutor em Ciências), e abordou o tema Cegueira e civilização, onde está a natureza?, além do jornalista Hernán Sorhuet, colunista do jornal uruguaio El Pais, que palestrou sobre o tema Desafios da cobertura jornalística dos temas ambientais.

  
             
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