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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
  
Reflexão sistêmica diante da Crise, corte nos graúdos e plano emergencial

As mudanças climáticas e os prognósticos sombrios para o futuro da vida no Planeta já estavam relacionados cientificamente com a atividade econômica abusadora do clima e dos recursos naturais.

  
Por Paulo Brack
  
Estamos vivendo não somente uma crise econômica, mas socioambiental e de paradigmas, com um tamanho incomensurável. Ela não começou em setembro de 2008. Foi muito antes. Hoje a Crise é sistêmica. Assim deve ser vista, de forma conjunta, pois é resultado de uma situação que já estava ficando inevitável, sendo prevista por cientistas e pensadores, há mais de um século.

As mudanças climáticas e os prognósticos sombrios para o futuro da vida no Planeta já estavam relacionados cientificamente com a atividade econômica abusadora do clima e dos recursos naturais. O neoliberalismo e a economia de mercado, com sua sanha de acumular sem limites os bens da natureza e da força de trabalho dos pequenos, foram longe demais. Dados científicos comprovam também que o uso dos recursos da Terra, atrelado ao circulo vicioso de “sempre mais consumo e mais produção”, está ultrapassando em muito a capacidade de suporte e recuperação do Planeta.

Trata-se do esgotamento não só dos recursos naturais, mas do próprio sistema econômico mundial. Ele está ruindo, ou quase. Desde poucos anos, ficaram mais evidentes suas profundas contradições. O “Mundo da Fantasia”, que é movido por uma economia supostamente para o “bem comum”, na realidade se pauta pelo acúmulo ilimitado de bens para poucos. Como conseqüência, espraia-se a destruição da própria vida, em todas as partes. Os filmes “The Corporation” e “Encontro Com Milton Santos” ilustram bem isso.

Convivemos agora com uma destruição ecossistêmica nunca vista na história. Uma opressão e falta de perspectivas e de valores nos seres humanos. A depressão já é uma doença epidêmica. Algumas grandes corporações que investiram, sem parar, na especulação financeira e no acúmulo dos bens alheios comandam os caminhos errantes de uma economia cada vez mais sem sentido.

A globalização econômica é o próprio “Titanic” de um modelo que busca a hipertrofia de capitais, propriedades e poder crescente. Para tal, contam com a privatização dos seus benefícios e a socialização dos prejuízos. Mas tudo isso tem limites. Os icebergs já eram previstos e são vários: mudança climática, desigualdade social insuportável, violência desmedida, esgotamento dos recursos naturais, falta de água potável e de local para o lixo crescentemente descartável, etc. Cabe saber, quando o Titanic afundar de vez - pois já está fazendo água por todos os lados – se têm botes salva-vidas para todos. Ora, se for como o filme - o que é mais provável - já sabemos quem vai se salvar. A primeira classe da claque do próprio Titanic. O resto...

Pra quem já foi à Amazônia e viu áreas imensas com floresta virgem virarem cinzas, em horas, para “agregar valor às terras”, ou ver áreas imensas, de milhares de hectares das últimas florestas com Araucárias ficarem embaixo d’água, por um colar de hidrelétricas, para exportar produtos brutos como cimento e alumínio, não acha muito sentido neste modelo. Ainda mais quando se prevê mais e mais usinas, inclusive nucleares e a carvão, onde o sol e o vento abundam. Enquanto este crescimento não tiver teto, a natureza não tem saída.

A perda de sentido na vida, pela luta acirrada pela sobrevivência, é o resultado dessa patologia econômica em que vivemos e nos afoga. O paradigma é a produtividade máxima, mais modernamente a competição via “inovação” para manter o consumo máximo, o conforto físico, a uniformidade e a “qualidade” (?), obviamente com competitividade. O caminho individual, imediato, com lucros e sem horizontes é a obsessão. Para isso, o único sentido é o acúmulo de poder e de capital pelos governos, corporações ou pessoas, movido pelo consumo. O emérito geógrafo Milton Santos chamava isso tudo de fundamentalismo.

A Autofagia é inerente ao ser humano? A grande escala, a uniformização (monoculturas) e o produtivismo para poucos fazem parte da natureza do ser pensante sobre a Terra?

O ser humano, além de uma inteligência, cultura e emoções, é diferente dos demais seres vivos. Não deixa de ser um animal, que tem princípios de cooperação e solidariedade, e também de competição e agressividade, fatores que de certa forma são biológicos, mas também encerram um universo cultural complexo. Mas a identidade de cooperação está presente. Sem a cooperação milenar não teríamos chegado até aqui. O bem comum parece que está muito mais evidente nas sociedades pequenas e locais. Estes valores estão sendo inibidos por um processo de individualismo, com raízes pouco claras. Talvez mais ligadas a grande escala das coisas, hoje agravadas por um falso mundo globalizado. Realmente, estes desvios de comportamento ainda necessitam ser mais bem estudados.

Agora, parece-nos um equívoco imputar a degradação da natureza simplesmente ao “homem”. Este termo é muito usado, porém generaliza toda a espécie humana, em uma simplificação irreal, tornando pasteurizado em uma só entidade os múltiplos comportamentos de uma sociodiversidade planetária.

Bom, em resumo, o processo é complexo, mas se agravou, inclusive pela perda de paradigmas nas sociedades “modernas”. O socialismo real não deu muito certo, apesar de que Cuba é considerada por uma das mais importantes ONGs internacionais, a WWF, como o único país do mundo com desenvolvimento sustentável. O socialismo voltará? Respeitando a descentralização e o despojamento necessários ou reproduzindo a velha centralização de poder? Os cientistas políticos, demais e pensadores e a própria sociedade terão muita tarefa para trocar impressões sobre esse momento impar na história. Desde que com abordagens mais sistêmicas e ecológicas. Cabe muita leitura, reflexão e diálogo.

Pelo menos, ficou a lição de que o processo, que reuniu tanta desregulamentação neoliberal (trabalhista e ambiental) junto com especulação financeira, foi a gota d’água.  O prejuízo, infelizmente, está caindo mais uma vez nas costas dos trabalhadores, que ficarão desempregados e sem perspectivas para suas famílias. Mais miséria, alcoolismo, crack, assalto e falta de sentido na vida.

As grandes empresas e os governos, que apostaram tudo neste sistema, vão permanecer impunes? O governo brasileiro não sabia deste “cassino”? Lula fez justamente esta comparação, entre os grandes especuladores da bolsa e os jogadores de um cassino. E agora?

Tudo indica que no Brasil, os jogadores deste cassino, ou seja, as mesmas grandes empresas e os setores econômicos, engordados pelo BNDES, responsáveis pela crise financeira são os mesmos que agora estão buscando auxílio governamental, apesar das demissões em massa de seus trabalhadores. As perspectivas de o ciclo vicioso seguir são amplas.

Lamentavelmente, o Estado brasileiro sempre foi usado pelos setores econômicos mais imediatistas e entreguistas, mantendo benefícios privados pomposos, com os recursos públicos, principalmente ao capital internacional.

A sociedade deve refletir sobre o momento, e as respostas não poderão ser demoradas. Os movimentos e organizações sociais devem cobrar dos governos e dos políticos respostas republicanas que resultem no corte imediato do ciclo vicioso dos benefícios aqueles que desempregam, degradam e não têm compromisso com o País, nem com nada. Esses caminhos passam pela sustentabilidade, transparência, democracia e transversalidade nas políticas (socioeconômicas e ambientais), mantendo e avançando em itens que representam conquistas que a sociedade alcançou com tantos sacrifícios (ex. Constituição de 88, Convenções da Rio 92, etc.). Neste sentido, deve ser realizada uma auditoria dos que aprofundaram a crise, de forma imoral, abusando da especulação do dólar nas bolsas, por meio dos chamados derivativos, como no caso das empresas, Votorantim, Aracruz, Sadia, CSN, etc.

Os recursos e apoio para driblar a crise devem ser dados prioritariamente aos pequenos, em especial os pequenos agricultores (agroecologia), pequenos negócios, energias alternativas que abundam no País, com a realização de debates e construção democrática de desenvolvimentos endógenos e locais. Nada ao consumo perdulário, ao gasto de energia desenfreado, ao setor que polui e à insanidade das monoculturas.

A eventual inércia da sociedade e dos movimentos implicará em chancelar as ações que estão sendo tomadas nestas semanas, com os fartos recursos governamentais (muitos do próprio trabalhador, via FGTS) para reconstruir a insustentabilidade, via, por exemplo, as grandes obras impactantes do PAC, setor automobilístico, maior consumo de supérfluos, recursos ou isenções para empresas de pasta de celulose, monoculturas insustentáveis com herbicidas e insumos barateados pelo governo, entre outras.

Barack Obama, a despeito de ser o presidente na nação mais responsável pela atual Crise, inclusive já está tomando iniciativas por lá, em exigir contrapartidas dos setores econômicos, com redução de altos salários dos diretores de grandes empresas, com estímulo aos setores menos perdulários em energia e com menor impacto poluidor, etc.

E no Brasil? Haverá cortes aos setores que teimam em manter a insustentabilidade?

Esta resposta somente poderá ser dada pela sociedade e sua mobilização. 
 
 
Paulo Brack é biólogo e professor da UFRGS e membro fundador do Ingá – Inst. Gaúcho de Estudos Ambientais.
  
             
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