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Terça-feira, 24 de Março de 2009
  
Código (Anti) Ambiental de Santa Catarina

Na foto, construção irregular, em área de preservação permanente, em Blumenau. Demonstração clara de que os cinco metros de mata ciliar propostos pelo novo cógico (anti) ambiental não protegem nada e deixam a população à mercê de novas catástrofes.

  
Por Luís Eduardo Souto
  

Transcorridos pouco mais de três meses das catástrofes que assolaram o estado de Santa Catarina, em razão das fortes enxurradas e dos descuidos do homem com o meio ambiente, provocando enchentes de toda ordem, deslizamentos de encostas, dezenas de mortos e milhares de desabrigados, além de gigantescos prejuízos econômicos ao Estado, parece que a tragédia sensibilizou o Brasil e o Mundo, mas não a maioria dos deputados catarinenses, determinados que estão para a aprovação do Código Ambiental Estadual, PL 0238.0/2008, prevista para o próximo dia 31 de março na ALESC.

Das inúmeras alterações realizadas pelo Governo do Estado à minuta inicialmente elaborada por representantes de diferentes segmentos da sociedade civil, entidades públicas e privadas, a mais grave e perigosa de todas as alterações, sem sombra de dúvidas, está na redução das matas ciliares situadas às margens dos cursos d’água, de 30 para 5 metros. A mobilização do setor produtivo, com o apoio explícito do Governo é enorme e bem articulada, confundindo significativamente a opinião pública.

O argumento utilizado é o prejuízo econômico que as áreas de preservação permanente- APPs, situadas ao longo dos rios, ocasiona com a perda de área produtiva na pequena propriedade rural. Segundo informações do Levantamento Agropecuário Catarinense – LAC, 89% das propriedades agrícolas catarinenses são minifúndios de até 50 hectares, representando aproximadamente 167.000 propriedades rurais distribuídas em solo catarinense.

E o argumento é que uma parcela destes está sendo economicamente afetada pelas regras ambientais vigentes. Porém, o que poucos sabem é que, também segundo dados do LAC, dos aproximadamente 6.000.000 de hectares que servem à produção agrícola do Estado, 32,52%  pertence a apenas 1,9% dos proprietários rurais, detentores de grandes latifúndios. Este dado deixa explícito que os principais interessados (e beneficiados) com a mudança legislativa não são os pequenos agricultores (que representam 45,68% da extensão fundiária), e sim os grandes.

Com a lei, toda a sociedade catarinense abdicará para sempre de boa parte deste importantíssimo bem ambiental que a todos pertence (as matas ciliares), cuja função prioritária está na preservação dos recursos hídricos, essencial à sobrevivência humana, renúncia esta que servirá, de forma especial, a uma minoria economicamente privilegiada. É justo que isso ocorra? O que poucos sabem, pasmem, é que o pequeno agricultor familiar, e somente ele, em vista do reconhecido interesse social da sua atividade, já possui autorização legal, pelo próprio Código Florestal (lei 4.771/65) que se pretende revogar, para economicamente utilizar as áreas de preservação permanente, desde que o faça mediante um sistema de manejo agroflorestal sustentável.

Na realidade, nem o Poder Executivo Estadual, nem o Setor Agroindustrial, em vista da redação do art. 115 do projeto de lei, demonstram empenho em contornar o problema pelo caminho da legalidade, estímulo à utilização responsável destas áreas ecologicamente importantes e geração de fontes alternativas de renda ao pequeno agricultor. Aliás, no sistema de integração é fato sabido que desinteressa às agroindústrias que os seus integrados tenham outras fontes de renda. A absoluta relação de dependência faz e sempre fez parte do negócio. Também é importante que a população saiba que o Ministério Público, com razoabilidade e responsabilidade sócio-ambiental, de forma pontual, há anos, juntamente com a FATMA e outras entidades, mostra-se sensível à causa.

O auxílio vem sendo prestado a milhares de pequenos agricultores com a facilitação da obtenção dos licenciamentos ambientais através de termos de ajustamento de condutas- TACs,  que vem sendo firmados e renovados com os diferentes setores produtivos (suinocultura, avicultura, rizicultura, fruticultura, dentre outros), voltados à regularização ambiental de situações consolidadas. Esses ajustes, em sua maioria, fixam a extensão das matas ciliares a serem protegidas em 10 metros, e não 30 como afirma o setor produtivo, mediante o cumprimento de outras exigências ambientais importantes, com especial destaque para o tratamento e destinação  adequada dos resíduos da produção.

É revoltante que projetos de lei voltados a instituição de incentivos fiscais ecológicos, assim como outras iniciativas de estímulo à preservação ambiental e à sustentabilidade da própria atividade econômica continuem sem vez na Assembléia Legislativa. Se o Código Ambiental Estadual for aprovado com a atual redação, constituir-se-á numa aberração jurídica, eis que afrontará o Estado Constitucional de Direito em desrespeito às regras de competência previstas nas Constituições Federal e Estadual, como bem sabem os senhores Deputados, além de apresentar vício de legitimidade, eis que a sua redação atual não possui o amplo respaldo social, mas principalmente de um segmento, que é o setor produtivo.

E afetará também, de forma direta, a geração presente, tornando-a ainda mais vulnerável às intempéries climáticas, estimulando a ocorrência de novas catástrofes, possivelmente com maior envergadura que as já ocorridas, considerando a importância das matas ciliares na contenção de enchentes em face das previsíveis enxurradas que estão por vir.

Acredito que ainda haja tempo para uma mobilização e forte reação social voltada à reversão do quadro grave que se anuncia e sensibilização de nossos representantes, dispensando complexas batalhas judiciais, desgastantes e custosas aos cofres públicos.   Ou aguardemos, mais uma vez, as conseqüências catastróficas de nossa passividade.   

Luis Eduardo Souto é Promotor de Justiça e Coordenador-Geral do Centro de Apoio Operacional do Ministério Público de Santa Catarina. O artigo acima foi apresentado no Seminário "Ambientalis 2009", realizado em Chapecó de 17 a 19.03.2009, na palestra "Código ambiental de Santa Catarina". Foto: Míriam Prochnow.

  
             
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Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
           
 
  Comentários
  
ADRIANO - 16/04/09 - 21:19
É RIDICULO UM SÓ CÓDIGO AMBIENTAL PARA UM PAÍS DO TAMANHO BRASIL, COM TANTAS DIFERENÇAS DE CLIMA E TOPOGRAFIA. SANTA CATARINA ESTA CERTA E ISSO É APENAS O COMEÇO PRECISAMOS PRODUZIR! CHEGA DE ECOLOUCOS DE GABINETES E ONGS ALIENIGENAS INTERFERINDO EM NOSSAS VIDAS SEM QUALQUER CONHECIMENTO DE CAUSA . ESPERO QUE CADA ESTADO FAÇA O SEU CÓDIGO AMBIENTAL DE ACORDO COM SUAS REALIDADES. CHEGA DE FANTASIA AMBIENTAL. ADRIANO 16/04/2009 18:09:41 -------------------------------------------------------------------------------- A CNA levou aos ministros Carlos Minc, do Meio Ambiente, e Roberto Mangabeira Unger, Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência, estudos e avaliações científicas sobre a utilização dos recursos naturais e a exploração racional e sustentável da agricultura e da pecuária. “Estes estudos demonstram que muitas normas ambientais federais são excessivas, incoerentes, irreais e apenas inviabilizam a agricultura, a pecuária e o agronegócio no País”
Paulo - 15/05/09 - 18:32
Não concordo com o comentário anterior, pois preciso fazer umas considerações: 1ª - Na maioria das vezes o Código Ambiental não foi respeitado no Brasil, assim como as Leis Ambientais e o Código Florestal, e por que não falar, a própria Natureza não foi respeitada. O "progresso" sem limites destruiu quase tudo! 2ª - Sempre os Ambientalistas e as pessoas conscientes solicitaram que as leis ambientais fossem cumpridas e não foram. Porque agora, mais uma vez que se quer realmente cumpri-las, existem vozes contrárias? 3ª - Pelo motivo exposto acima, em que se vê a natureza como impedimento às atividades econômicas, estamos sofrendo toda esse "clima maluco", estações do Ano que já não são bem definidas como antigamente, esse aumento de desastres ambientais, como tornados, enchnetes, furacões, secas, perdas de plantações, prejuízos econômicos e de vidas... 4ª - Sei que os agricultores precisam produzir e estão CERTOS, mas com o devido respeito ao meio ambiente, porque se não houver esse cuidado, irão, num futuro bem próximo, PERDEREM toda a sua produção, tudo o que investiram, e daí sim, darão razão a todos os "ECOLOUCOS" de gabinetes e "ONGS ALIENÍGENAS". OS ECOLOGISTAS são amigos e parceiros da atividade agrícola e não inimigos. 5ª - RESPEITAR A NATUREZA PARA SEMPRE PRODUZIR!
Jorge Luiz Pereira - 08/06/09 - 22:01
Concordo com a idéia de cada Estado ter suas proprias leis ambientais, mas entendo que devemos melhorar em muito as nossas políticas ambientalistas, políticas de preservação ambientais...só sabe o tamanho da dor aquele que a sente...na região onde moro predomina, das nativas, a araucária e nos últimos anos, com todas as leis proibindo o corte, passei a perceber que não se vê mais a araucária de pequeno porte, em crecimento ou na sua idade "jovem". Então comentando com um e outro chegou ao meu conhecimente uma prática exercida por proprietários de terras com araucária...quando a muda da árvore e localizada é exterminada antes que venha "causar dificuldade" para o terreno. Sem falar na queda do valor comercial das áreas que possuem mata nativa. Ora se um cidadão possue uma área de terra repleta de área nativa, pagando o INCRA, pagando para demarcar a área da reserva legal, pagando para fazer o "georeferenciamento"....paga-se então para "o bem geral da nação" e não recebe-se nada da nação...porque pagamos para que todo mundo possa ter uma vida melhor enquanto a nossa vide vai se transformando em um bolso sem fundo...O terreno só tem valor quendo se fala em preservação mas quando se fala em vender a área...hummm....terreno com mata nativa??!!!! Se você anuciar uma doação da área, talvez, e talvez....alguem se interesse em cuidar dele....a proposito, tenho 10 alquere preservados mas confesso que estou desmotivado para tal....
 
  
  
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