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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
  
Macroinvertebrados Bentônicos e as represas

O governo do RS iniciou as obras  da barragem do Jaguari com Licença Prévia vencida e sem Licença de Instalação.

  
Por Millos A. Stringuini
  

 

Os rios já foram comparados com as artérias de um corpo humano, visto que é através deles e de seus elementos constituintes inter-relacionados entre si e com os outros ecossistemas que ocorrem os fluxos transporte de nutrientes para a alimentação e a evolução da biodiversidade. Muito similar aos sistemas circulatórios.

A água permeia todos os ciclos biogeoquímicos e assim dinamiza a vida no planeta.

No fundo dos rios encontramos as comunidades de Macroinvertebrados Bentônicos, as quais em termos numéricos de espécies são muito grandes e com extraordinária diversidade de gêneros de vida (Margalef, 1983)

Essas comunidades de macroinvertebrados bentônicos são compostas por larvas de insetos, crustáceos de águas doces e muitas outras espécies animais. Sua distribuição espacial ao longo dos rios é fundamental para o desenvolvimento de toda a fauna aquática e terrestre, visto que essas comunidades estão hierarquicamente próximas da base das teias alimentares.

A dinâmica ecológica dessas comunidades é muito intensa e complexa, mas também muito sensível a alterações do regime hidráulico e poluições. De forma didática e simplificada tentaremos explicar esse fenômeno.

Primeiramente é necessário saber que muitas espécies de insetos existentes no planeta possuem larvas aquáticas que são originadas de ovos depositados nas cabeceiras dos rios. Ao longo de suas existências, na fase larval, esses animais são arrastados pela correnteza em direção à foz (estão à deriva – drift em inglês), bem como por motilidade própria migram rio abaixo, na busca por alimento.

Em contracorrente, muitas espécies de peixes sobem o rio para depositar seus ovos e nesse trajeto alimentam-se, usando de toda a estrutura horizontal e vertical da coluna d’água No fundo dos rios encontram nos macroinvertebrados bentônicos, uma farta fonte de alimento.

Muitas daquelas larvas aquáticas que escaparam da predação no rio irão evoluir em seu ciclo de vida para uma outra fase, desta feita, terrestre. Nessa nova fase, de modos migratórios muito variados, irão pulsionar em direção às cabeceiras dos rios. Nesse trajeto terrestre, servirão também como fonte de alimento para muitos animais terrestres que vivem nas cercanias dos rios, tais como alguns répteis e anfíbios.

Aqueles indivíduos que conseguirem chegar vivos às cabeceiras do rio, nela depositarão seus ovos e assim completar-se-á o ciclo interminável de repovoamento e expansão das comunidades, tanto aquáticas como terrestres, dependentes direta ou indiretamente dos rios.

Influem nesse ciclo uma intrincada rede de fatores bióticos e abióticos, destacando-se, a título de exemplo, a concentração de oxigênio dissolvido na água, as variações de temperatura e todas as consequências da sazonalidade.

Em suma, as comunidades de Macroinvertebrados bentônicos, como todos os seres vivos da Terra, são partes integrantes e indissociáveis dos rios e de todos os ciclos biogeoquímicos, estando muito próximas da base do ciclo de vida do planeta, constituindo-se em uma importantíssima fonte de alimentação para a manutenção e progressão da biodiversidade aquática e terrestre.

Quando os humanos, através da construção de represas, agem sobre os regimes hidráulicos, alteram, em efeito dominó, toda a dinâmica ecológica dos rios, obrigando a natureza a procurar novos padrões de organização desses ecossistemas. Via de regra, essa reorganização apresentará, imediatamente, uma redução do número de indivíduos e de espécies presentes. Trata-se daquilo que cientificamente é chamado de regressão da maturidade dos ecossistemas, ou seja, o retorno para uma condição com menor biodiversidade e com redução das taxas de renovação dos ecossistemas.

As represas e os macroinvertebrados bentônicos.

Margalef, Ramon em seu tratado de Limnologia, página 786 diz:

A construção de represas altera profundamente as redes fluviais consideradas como residências de espécies de peixes, principalmente daqueles que migram. Esse inconveniente se tentou paliar estabelecendo escadas de peixes ou deixando que circule uma fração do rio primitivo. Em realidade, entre 10 e 25% de água total deveria fluir por fora da represa para manter, não somente as populações de peixes, mas também um mínimo de água no antigo leito do rio, abaixo da represa. Todavia, quando se decide fixar um mínimo, prontamente essa se converte em valor médio e se apresentam perigosamente, valores mais baixos; ademais, se não existem enchentes de vez em quando, não existem condições normais.

Por sua vez, com a transformação do regime hidráulico do rio, com a redução da velocidade da deriva hidráulica dos macroinvertebrados bentônicos, longitudinalmente haverá um empobrecimento nas relações interespecíficas e, em especial, na relação de alimentação dos peixes em contracorrente, que se alimentam dos macroinvertebrados bentônicos. As represas retêm importantes quantidades de macroinvertebrados bentônicos que estavam naturalmente sendo transportados rio abaixo.

Em havendo redução dos números de indivíduos nas comunidades bentônicas à jusante das barragens, inevitavelmente as comunidades de peixes que se alimentam dos macroinvertebrados também serão reduzidas.

A prova dessa afirmação está apresentada no livro River Ecology, studies in Ecology, editado por B.A Whitoon University of Califórnia Press, 1975, capítulo 22, Ecological Aspects of River Impoundments, RIDLEY J.E and STEEL , página 587, onde pode ser lido:

A construção de represas, obviamente tem efeitos diretos nos peixes migratórios, a menos que precauções especiais tenham sido tomadas para eles (Foerster, 1930). Muitos exemplos de rios são atualmente conhecidos onde a construção de uma represa teve uma remarcada influência nas populações de peixes e seus comportamentos. Por exemplo, Glen (1974) descreveu como vários desenvolvimentos hidroelétricos no Oeste do Canadá bloquearam ou impediram migrações de espécies economicamente importantes...

Por sua vez, no Brasil já foram feitas reportagens de televisão falando sobre o tema do empobrecimento da fauna dos rios após a construção de represas. Seguramente a mais impressionante de todas foi uma na qual os pescadores mais antigos do Rio São Francisco denunciavam a rarefação dos peixes após a construção da Hidrelétrica de Paulo Afonso.

Na TV5 – França, o programa Des Hommes et Des Terres abordou também o tema, inclusive citando a famosa represa de Assuã no Rio Nilo, onde não somente as terras inundáveis foram prejudicadas em sua importante capacidade de produção, mas também na redução calamitosa da pesca.

Seria possível citar aqui uma infindável lista bibliográfica internacional falando desse importante tema ecológico. Basta para isso colocar em um buscador de Internet as palavras Macroinvertebrates + HydroPower Facilities.

Todavia, o objetivo desse artigo é outro. Ele visa didaticamente informar que o autor através de suas pesquisas identificou que os Estudos de Impacto Ambiental no Brasil, de forma cientificamente concreta, não abordam o impacto das barragens sobre as comunidades bentônicas e suas consequências dinâmicas. A grande maioria deles não passa de uma mera e incompleta lista de espécies das áreas que serão inundadas pela represa e de alguns peixes maior abundância.

Além disso, alguns falam de repovoamento com peixes das águas à jusante das barragens, como se isso bastasse para solucionar o impacto. Sem a integridade da comunidade de macroinvertebrados bentônicos, os animais colocados para repovoar os rios, frente à raridade alimentar existente, irão estabelecer padrões elevados de competitividade intra e extra-específica (Andrewartha, H.G. et alli, 1974) fato que no curto espaço de tempo conduzirá ao fracasso da tentativa de repovoamento, como foi comprovado por Reizer, C. nos anos 80 (C.P) nas tentativas realizadas no Senegal.

Localmente, quem conheceu a abundância de espécies de peixes no Rio Jacuí no Rio Grande do Sul, onde, por exemplo, eram encontrados enormes dourados em piracema na cachoeira do Fandango, na altura da cidade de Cachoeira do Sul, não pode deixar de lado a indignação em ver o empobrecimento da fauna de nossos rios, pela destruição indiscriminada das comunidades de macroinvertebrados bentônicos e, por via de conseqüência, de grandes partes da biodiversidade.

Sem dúvida, a falta de estudos de impacto ambiental cientificamente válidos tem gerado a construção de barragens com nulidade de precauções para esse importante fenômeno ecológico. O quadro piora ainda mais com a associação de uma exponencial perda da qualidade das águas por poluição orgânica e química.

A falta de aplicação prática dos ditames corretos da ciência ecológica na construção de represas sempre tem e terá por consequência uma remarcada progressão em direção ao empobrecimento da fauna dos rios, fato que dentro de poucos anos terá resultados sociais e econômicos de grande significado negativo.

LEITURA COMPLEMENTAR RECOMENDADA:

ANDREWARTHA H.G and BIRCH, L.C; THE DISTRIBUTION AND ABUNDANCE OF ANIMALS; The University of Chicago Press; Chicago, USA, 6ª ed; 1974.

MARGALEF, R. LIMNOLOGIA; Ediciones Omega S., Barcelona, Spain, 1983. 
 
WHITTON, B.A, Editor, RIVER ECOLOGY Studies in Ecology volume 2 - University of California Press; USA, 1975.


Millos A. Stringuini é biólogo, Doutor de Estado em Ciências do Meio Ambiente na Bélgica (1988), perito e consultor internacional de projetos e financiamentos.   

  
             
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