Untitled Document
Bom dia, 03 de ago
Untitled Document
Untitled Document
  
Untitled Document
EcoAgência > Artigos
    
 
Domingo, 15 de Fevereiro de 2009
  
Hidrelétricas: Belo Monstro invadiu o Fórum Social Mundial

Em nenhum momento, nos dois dias, os técnicos assumiram que 27 comunidades indígenas serão afetadas e terão suas terras alagadas.

  
Por Ana Paula Fagundes
  

Ironicamente chamadas de oficinas, duas atividades ocuparam o espaço do Fórum Social Mundial
para promoção da Hidrelétrica de Belo Monte ou Belo Monstro, que querem construir no Rio
Xingu. “Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte e sua importância na Matriz energética
brasileira e para o desenvolvimento social” e “A integração da UHE Belo Monte ao sistema
integrado nacional e aos sistemas integrados da Amazônia e os impactos ambientais e sociais”, nada
mais eram do que espaço para propaganda sobre a construção de Belo Monte. Somou-se a isto um
estande com maquete e informações sobre os supostos benefícios da obra.

O Fórum Social ,que deveria servir de encontro para propor soluções alternativas às grandes obras
destruidoras do Planeta, serviu de palco para reafirmar um modelo de desenvolvimento equivocado
e destruidor da biodiversidade. Durante dois dias, com o poder do microfone e legitimados pela
coordenação do Fórum, técnicos ligados a obra de Belo Monte ignoraram a manifestação da platéia
presente, falando de benefícios irreais da megahidrelétrica. As atividade promovidas pela
Eletronorte e pelo governo, através da Federação Nacional dos Urbanitários, filiados a CUT,
ocorreram em 30/01/2009, no salão verde do prédio central da Universidade Federal Rural da
Amazônia (UFRA) e 01/02/2009 no Auditório Central da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A discussão de Belo Monte não é recente. Pelo contrário, com o nome de Kararaô, Belo Monte, está
no debate desde a década de oitenta. Desde lá, as comunidades reivindicam a preservação de suas
terras sagradas e o não represamento do rio. O projeto inicial da construção de sete barragens foi
re-estruturado e agora o governo propõe uma hidrelétrica. O represamento de Belo Monte inundará
uma área significativa e como outras obras na Amazônia é de dimensões gigantescas. Já o discurso
de ser a única construção parece ser mais uma balela do governo. Estudos mostram que apenas uma
hidrelétrica não vale a pena, acredita-se que esta deve ser o início de uma série.

Primeiro dia: inicio das “Oficinas” de uma única voz


O termo “oficina” supõe que deva se aprender algo, ou pelo menos que haja trocas entre os
participantes e oficineiros. Mas, enquanto Eletronorte e técnicos da Hidrelétrica tinham voz e
microfone, proferindo discursos intermináveis, a plateia deveria ficar escutando passivamente. A
cada questionamento ou conversa os "sindicalizados da empresa" tentavam constranger com seu
tamanho, xingamentos pessoais e força.

No primeiro dia, do lado de fora antes do início da oficina índios e comunidade atingida
manifestavam sua indignação contra o projeto, imposto pelo governo. Os indígenas mostraram seu
desagrado munidos de lanças, pinturas e vestimentas características. Afirmaram que a hidrelétrica
não vai sair e que quem chegar lá para a construção vai sentir o poder das lanças. Parte do grupo
que se manifestava optou por não entrar na sala, cansados do mesmo discurso manipulador dos
organizadores. Já são várias as atividades promovidas para manter a fachada da democracia e
continuar impondo um modelo de desenvolvimento que beneficia as transnacionais e a espoliação
de nossos recursos que são exportados diariamente.

Quem entrou na sala terminou questionando as palestras. Enfadados de escutar a mesma
argumentação de "demanda energética", "crescimento econômico", "geração de empregos",
"desenvolvimento das comunidades carentes", a platéia, mesmo sem o microfone, manifestava suas
dúvidas e apresentava novos dados que contrariava o discurso imposto. Os argumentos para
construir grandes hidrelétricas não mudam, de norte a sul do país.

A quase totalidade da energia produzida no Brasil (75%) serve para indústrias que produzem
materiais de exportação. Servem para fazer produtos descartáveis como latas de alumínio. A
energia que provém das grandes hidrelétricas não é para o projeto "luz para todos". A questão social
serve de argumento para as grandes obras como as obras do PAC encobrindo a verdadeira
destinação da energia e função das obras. No caso da Hidrelétrica de Belo Monte a própria
Eletronorte se perde no discurso quando assume que a energia produzida irá para região sul e
sudeste do Brasil. Uma energia que não servirá para benefício da população local, mas as indústrias
eletrointensivas.

O inconformismo da platéia desagradou aos organizadores. Eles alegavam que a atitude não estava
sendo democrática. Afinal, após as palestras intermináveis haveriam minutos para esclarecer as
dúvidas. Ignorando a posição dos índios presentes o técnico foi capaz de dizer que os presentes
queriam "impedir que os índios tenham acesso ao desenvolvimento".

No momento da sua intervenção o cacique Kayapó foi enfático ao manifestar que a hidrelétrica não
vai sair e que seu povo vai lutar até a morte para defender suas terras. O cacique solicitou que fosse
mostrado o slide do mapa da construção da hidrelétrica e apontou onde era sua aldeia que seria
atingida pela hidrelétrica. Ao mostrar o local exato onde não seria construída a barragem,
“acidentalmente”, a sua lança furou o plástico onde era projetada a imagem saindo do outro lado do
painel. Uma imagem simbólica que ficará gravada na mente de quem estava presente.

Segundo dia: coordenação do Fórum se ausenta da responsabilidade

No outro dia a farsa dos benefícios de Belo Monte continuou. Na mesa somente os que eram
favoráveis à construção da obra. Na platéia: a comunidade. Procurada, a coordenação do Fórum
alegou que aquele espaço era legítimo, pois foi proposto por um sindicato e nada poderiam fazer.
Uma atitude lamentável.

Em nenhum momento, nos dois dias, os técnicos assumiram que 27 comunidades indígenas serão
afetadas e terão suas terras alagadas. Ao longo do Rio Xingu existem pelo menos quatorze mil
índios. Em nenhum momento os palestrantes falaram sobre os danos ambientais e sociais, embora
estes termos estivessem no título das “oficinas”. A omissão de que os povos existem e que devem
decidir sobre o futuro de suas terras persiste por décadas. Eles não são consultados sobre a
construção da hidrelétrica.

Como já era esperado, foi divulgado na mídia que a oficina mostrou para a população os
“benefícios” da hidrelétrica. Nada foi veiculado sobre os impactos da obra e sobre as manifestações
dos presentes. O Fórum serviu como um espaço para reafirmar uma idéia de progresso equivocada.
A coordenação do Fórum, legitimou a construção desta grande hidrelétrica, a propaganda de
empresas e manutenção de um modelo neoliberal destruidor de povos e biodiversidade. A omissão
de responsabilidade abre precedente para que empresas como Monsanto, Cargill, Bunge, Aracruz,
Votorantim venham a utilizar este espaço para propaganda. Um espaço que era para ser de
contestação e construção de um mundo mais solidário, ecológico e igualitário está sendo invadido
pelas empresas.

Ana Paula Fagundes é bióloga. Na foto, indígenas fazem protesto em frente ao auditório.
Sobre deserto verde: www.defesabiogaucha.org .

  
             
Untitled Document
Autorizada a reprodução, citando-se a fonte.
           
 
 
  
  
  Untitled Document
 
 
Portal do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul - Todos os Direitos reservados - 2008