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Quinta-feira, 02 de Dezembro de 2010
  
Mídia ambiental: a união poderia fazer a diferença

As mídias ambientais têm todo o direito de se apresentarem de forma unida e organizada para reivindicar melhor distribuição das verbas públicas de publicidade que hoje deságuam quase toda na mídia não ambiental, desequilibrando o acesso da sociedade às informações socioambientais e privilegiando uma mídia que vai na direção contrária da sustentabilidade e estimula o consumo e o desperdício.

  
Por Vilmar Sidnei Demamam Berna
  

Injustamente, a publicidade e o marketing têm sido considerados os primos pobres da comunicação, onde o jornalismo é tido como lado, digamos, mais nobre e elegante. É injusto por que sem a viabilidade econômica não existe independência jornalística, nem jornalismo. O que afeta comercialmente aos veículos, afeta aos empregos, às promoções e principalmente à democracia e o acesso da sociedade a informação estratégicas para que possa fazer escolhas melhores num momento em que precisa se definir entre um modelo tradicional predatório e injusto e outro sustentável. Então, a existência ou não de uma mídia ambiental forte não é um assunto comercial, mas político e da essência da própria democracia e sustentabilidade.

Diante da impossibilidade de sobrevivência econômica com venda em bancas ou de assinaturas, a mídia ambiental é como um barquinho a vela movido graças à forca dos ventos de seus anunciantes, sofrendo com momentos de calmaria onde os anúncios desaparecem que se alternam com momentos de ventos fracos. Na mídia ambiental não tenho conhecimento de ventos fortes.

À primeira vista não se trata de um problema particular de um ou outro veiculo, mas uma falta de vento que afeta a todos, em especial aos veículos com uma única vela voltada para os anúncios que sopram do Governo Federal e de suas empresas associadas. Tradicionalmente, a cada mudança eleitoral os recursos desaparecem, até por conta dos impedimentos legais, agravado pela mudança administrativa até que os operadores que controlam os ventos saibam como e para onde orientá-los, decisão que naturalmente não cabe a eles, mas aos que os influenciam. E ainda tem a mudança de ano, onde as verbas publicitárias do ano que finda já acabaram e as do ano novo ainda não foram aprovadas.

A maneira de sobreviver neste cenário é economizar nas vacas gordas e esperar que a calmaria passe. Trata-se uma atitude prudente, mas passiva que tem mais ou menos dado certo, mas ao custo de vermos minguar as tiragens, os números de paginas e de edições, e comprometer cada vez mais a capacidade da mídia ambiental  em contratarem e manterem seus profissionais e, principalmente, de atenderem o objetivo principal: chegar ao distinto público.  Assim, a mídia ambiental virou praticamente uma empresa familiar, ou dependente da dedicação voluntária de alguns abnegados que assumem a tarefa mais por compromisso ideológico que por sobrevivência econômica. Geralmente existe um editor, no fundo o único ou o principal responsável por conseguir as verbas para manter o veículo.

Na verdade, este é um assunto requentado. A mídia ambiental já tomou a decisão de mudar e de atuar coletivamente ao decidir pela fundação da ECOMIDIAS - Associação das Mídias Ambientais. Entretanto, entre as promessas de mudanças, as palavras e a boa intenção, faltou uma prática em quantidade e qualidade suficiente para a enormidade da tarefa que se desdobra em duas grandes ações, uma no campo das políticas públicas para a democratização da informação socioambiental e outra comercial, para assegurar uma distribuição mais justa das verbas de publicidade entre uma mídia comprometida com o consumo, o desperdício e a continuidade do atual modelo e uma mídia comprometida com a sustentabilidade e com um novo modelo.

No campo das políticas públicas, a ECOMÍDIA associou-se à RBJA (Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental) e à REBIA (Rede Brasileira de Informação Ambiental) e juntos conseguiram sensibilizar demais setores da sociedade até desaguar no Ministério do Meio Ambiente, na época tendo à frente a Ministra Marina Silva, que criou um Grupo de Trabalho para tratar da questão da Comunicação Ambiental que de fato nunca se reuniu e acabou no esquecimento pelos próprios interessados, que dirá dentro do Governo, que acertadamente se move por pressão e interesse da sociedade.

No campo comercial, a mídia ambiental fez uma reunião com o ex-ministro Sarney Filho, coordenador na época da bancada ambiental no Congresso Nacional, e que conseguiu uma reunião dos editores da mídia ambiental com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, ligada à Casa Civil, que é de onde partem as decisões sobre a distribuição das verbas de publicidade do Governo Federal, ou onde se referendas as decisões das empresas ligadas ao Governo Federal. Funcionou durante algum tempo, mas política é que nem as nuvens, mudam a todo instante, e já passa a hora de refazer estes caminhos.

Importante ressaltar que, em nenhum momento foi ou será negociado a independência jornalística da mídia ambiental. Trata-se de verbas públicas que a sociedade em geral - e em particular as organizações do terceiro setor que dependem desses veículos para democratizarem suas ações, resultados e reivindicações, os proprietários de veículos de comunicação e os profissionais que militam nessa área e em particular - tem todo o direito de reivindicar que sejam mais bem distribuídas, num contexto de fortalecimento democrático. Distribuir todas as verbas públicas para fortalecer uma mídia comprometida com o modelo predatório de desenvolvimento não é exatamente ser isento ou democrático.

As mídias ambientais têm todo o direito de se apresentarem de forma unida e organizada para reivindicar melhor distribuição das verbas públicas de publicidade que hoje deságuam quase toda na mídia não ambiental, desequilibrando o acesso da sociedade às informações socioambientais e privilegiando uma mídia que vai na direção contrária da sustentabilidade e estimula o consumo e o desperdício. Se a sociedade espera um mundo mais sustentável, como aparentemente sinalizou nestas eleições, então as autoridades e políticos devem assegurar um equilíbrio melhor na distribuição das verbas de publicidade para que a informação para a sustentabilidade também possa chegar aonde precisa.

Então, se a escolha das mídias ambientais for por fortalecer a ECOMIDIAS, então os editores de mídia ambiental precisam mudar a estratégia, sendo mais proativos, dividindo tarefas e responsabilidades, assegurando recursos para a sobrevivência da organização. Entre as tarefas a serem divididas está a de buscar apoio na base aliada do Governo no Congresso Nacional e entre os novos governadores eleitos. Abrir - e manter abertos - canais de diálogo e negociação com a Presidência da República/SECOM, com as empresas do Governo Federal que anunciam na mídia ambiental (Petrobras, Furnas, Banco do Brasil, Caixa, Eletronorte, etc.) apresentando-se de forma unida e organizada e, muito importante, aliada às organizações do terceiro setor que dependem da existência de uma mídia ambiental forte para a democratizarem suas informações e resultados.

Do ponto de vista comercial, é importante negociar uma proposta coletiva diferente dos atuais 30% de desconto indiscriminado para toda e qualquer quantidade de anúncio. Poderíamos negociar outra proposta, por exemplo, 50 % de desconto para anunciar uma única vez em todas as mídias ambientais associadas ao mesmo tempo, por exemplo, campanhas como a das Queimadas. E individualmente, negociar e descontos escalonados em função do número de anúncios num mesmo veículo, por exemplo, 10% para um a dois anúncios; 20% para três a quatro; 30% para cinco a seis; 40 % para sete a oito; 50% para nove a doze anúncios no mesmo veículo. Os veículos da mídia ambiental assegurariam um percentual, digamos, de 5% para a ECOMÍDIAS e mais uma contribuição mensal de, digamos R$ 150,00, para a ECOMÍDIAS manter uma pequena estrutura em Brasília para fazer o acompanhamento das negociações,  manter abertos os canais de negociação e representar os veículos da mídia ambiental em eventos, seminários, congressos, etc.

Feito bem este dever de casa, e com a retomada dos anúncios, a ECOMÍDIAS passaria então a buscar os governos estaduais e prefeituras de grandes cidades, assim como grandes empresas privadas interessadas na divulgação socioambiental de seus resultados e ações, ampliando e fortalecendo a democratização da informação socioambiental no Brasil. Uma vez por ano, a ECOMÍDIAS, associada a RBJA e à REBIA, além de outros parceiros, organizaria um Congresso Nacional para avaliação da democratização da informação socioambiental no Brasil, conduzindo uma pesquisa de opinião sobre o tema e concedendo um prêmio anual aos que mais se destacaram neste campo, tudo com o patrocínio de projetos que ajudariam no financiamento das próprias atividades da ECOMÍDIAS durante o restante do ano.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor, com cerca de vinte livros publicados, destacando-se “O Desafio do Mar”, “É possível ser feliz”, “O desafio de escolher”, entre outros. Vilmar é também jornalista, em 1966 fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente ( www.portaldomeioambiente.org.br ). Como ambientealista, fundou a UNIVERDE e os Defensores da Terra, duas organizações da sociedade civil sem fins lucratiuvos dedicadas à defesa do meio ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – www.escritorvilmarberna.com.br

  
             
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